O que ninguém quer ler...mas deveria!!!
Enviado: 28 Mar 2008, 11:04
Por Geraldo Tite Simões Coluna do Tite
Nesta semana recebi mais uma daquelas mensagens chocantes de acidentes graves envolvendo motociclistas com motos esportivas. Normalmente esse tipo de imagem não me assusta mais, porém a freqüência me alertou: foi o quarto no período de 30 dias. Uma média de um por semana. Isso sim, preocupa. A exemplo do que já acontece em São Paulo, essa violência pode descambar em uma caça à bruxas. E as bruxas, neste caso, somos todos nós, que usamos a moto de forma prazerosa e consciente.
Você nunca verá nenhum artigo sobre acidentes nas revistas especializadas. Porque existe um grande tabu na imprensa especializada. Segundo as revistas motociclistas não sofrem acidentes. Uma grande besteira, resultado de uma filosofia tão hipócrita quanto antiga e que precisa ser mudada. Motociclistas caem sim, se acidentam gravemente, perdem membros, ficam com seqüelas irreversíveis e, principalmente, morrem! Mas cadê a coragem de tocar nesse assunto? Até parece que a morte não faz parte das nossas vidas. É algo que só acontece com os outros. Então deixa que eu escrevo!
O festival de carnificina que recebi no prazo de 30 dias foi de enjoar até dono de açougue. Quatro acidentes, todos com motos esportivas de grande cilindrada, todos em alta velocidade e 75% deles fatais. O mais impressionante deles me assustou não só pela violência das cenas, mas pela revelação de uma certa epidemia de curiosidade mórbida pela internet. As imagens correram o Brasil e o mundo em velocidade compatível com a dessas motos. Pobre do amigo que me mandou as fotos, porque recebeu um esculacho de volta e a promessa de não mandar mais. Só que logo depois outro leitor me mandou novas fotos de um acidente recente e outro motociclista despedaçado.
O elemento em comum nestes acidentes é o absurdo despreparo das vítimas para pilotar essas motos. Cada vez mais as motos esportivas podem ser comparadas às armas de fogo. Quem tem quer usar! Ninguém – acho que sou a única exceção – compra uma arma de fogo pra ficar olhando pra ela. Definitivamente não nasci pra ter armas porque tenho medo de atirar. Também sou capaz de ficar com uma moto esportiva durante o final de semana sem sentir uma necessidade vital de rodar acima de 200 km/h. Quem me conhece sabe disso e até brigam comigo porque sou muito lento!
Só que nem todo mundo que compra uma esportiva tem o necessário preparo. Desde que montei o curso SpeedMaster de pilotagem, em 1999, já vi as mais incríveis situações. Cheguei a receber ligação de uma pessoa que comprou uma 1.000cc esportiva sem nunca ter pilotado moto alguma ao longo da vida. Imagine 160 cavalos nas mãos de quem nunca rodou nem com uma moto de 10 cv!
Hoje quem tiver R$ 50.000 na conta e quiser um veículo que se aproxime dos 300 km/h só precisa comprar uma esportiva. Mais nada. Não precisa provar nada. Não precisa fazer um teste psicotécnico, nem de uma carta especial. Basta usar a mesma habilitação feita com uma moto de 12,5 cv e 120 kg, dentro de um ambiente fechado e sem passar da primeira marcha. Se conseguir passar nesse teste já pode ter uma moto de 190 cv e 170 kg capaz de atingir 320 km/h. O resultado dessa política de trânsito é a carnificina que vi em quatro acidentes.
Vou descrever apenas um. O motociclista bateu tão violentamente no guard-rail que seu corpo foi fatiado ao meio. Tronco prum lado, a cintura pra baixo foi parar a alguns metros. E teve gente que condenou o guard-rail! Não acredito! O cara se espatifa a mais de 250 km/h na estrada e querem condenar a estrada! É o festival de hipocrisia.
Em outro acidente, um empresário do Paraná morreu depois de sair da pista em altíssima velocidade sem bater em nada. Não tinha guard-rail, mesmo assim morreu de politraumatismo. Era jovem e dono de um hospital. No outro acidente, no interior de São Paulo, um delegado rodava em alta velocidade dentro da cidade quando um motorista decidiu entrar no posto de gasolina. E no mais recente, também no Paraná, um jovem bateu de frente com um carro e conseguiu sobreviver, mas teve uma perna e um braço amputados! Total falta de preparo e maturidade para pilotar motos esportivas.
E se ilude quem pensa estar seguro correndo na pista, porque nesse período também morreu um piloto em Interlagos durante um desses “cursos” ao bater na Subida do Café, ponto que venho condenando há mais de 10 anos e que já provocou a segunda vítima em menos de três meses. O piloto de Stock Cars, Rafael Sperafico, morreu em dezembro do ano passado neste mesmo ponto.
Da mesma forma que é preciso passar por um rigoroso exame para pilotar aviões – e tirar o brevê – as motos esportivas precisam ser encaradas como veículos especiais, diferentes das pequenas 125 e 250 cc usadas nos exames de habilitação. E os cursos de pilotagem não devem se limitar a ensinar a “correr”. Precisam levar a esses motociclistas a consciência e a vivência da pilotagem segura. Colocar um piloto sem experiência para rodar numa pista como Interlagos é arriscado demais. Eu mesmo dei aulas em Interlagos e parei depois de perceber o quanto a pista é perigosa para iniciantes. Quando escrevi no site GPtotal, alguns anos atrás, que Interlagos era uma pista condenada e perigosa teve leitor que quase me linchou. Agora temos dois cadáveres para expor aos que chegaram agora e se consideram aptos a palpitar sobre segurança. E podem anotar: vai morrer mais piloto de moto em Interlagos se não modificarem alguns pontos da pista!
De volta às estradas. Quando alguém compra uma moto esportiva todo mundo sabe que, lá no fundo, a idéia é correr! E não venham tentar me convencer do contrário porque estou nisso há 10 anos. Não cheguei agora. Sempre tem aquele que comenta: “comprei por causa do estilo”. Mentira deslavada! Comprou porque quer saber como é a sensação de rodar a 300 km/h.
Às vezes me sinto responsável por essa correria porque escrevi inúmeros testes contando em detalhes como é gostoso ter 180 cv debaixo das pernas. Já viajei com grupos de motos esportivas (que chamamos de Jaspions) e até mostrei no filme “Alma Selvagem”. E inocentemente acreditei que meu discurso pró-responsabilidade atingiria os donos dessas motos. Triste ilusão! Bastou um passeio pela região de Morungaba, interior de SP, para descobrir que estão pouco se lixando para esse papo de pilotagem segura. Eu vi motociclistas ultrapassando caminhões pelo acostamento a mais de 200 km/h. Pra mostrar o quê? Coragem? Técnica? Braço? Não reconheci nenhum grande piloto nessa turma. Porque os pilotos de verdade não correm na estrada. Pilotos de verdade correm na pista.
Quando eu estava nas revistas especializadas tentei impor uma norma de conduta de evitar a exposição exagerada de velocidade nos testes de esportivas. Manobras como empinar, RL, curvas “radicais” na estrada, mas acho que o peso dos meus quase 50 anos de idade resultou apenas em ser chamado de “velho”. Por isso, aqui vai um recado: quando você vir fotos de pilotos de teste como Eduardo “Minhoca” Zampieri (revista Moto), Leandro Mello (Duas Rodas), Pablo Berardi (Motociclismo), Jean Calabrese (Moto Adventure) ou Laner Azevedo (Moto Max) saiba que todos eles são pilotos mesmo, com experiência em competições, que treinam regularmente e fotografam em ambientes preparados. Não tente imitá-los, principalmente na estrada, porque não agüento mais receber imagens do objeto do nosso amor aos pedaços.
