"Eu não vi você!" - Revista SuperBike
Enviado: 19 Set 2009, 11:33
Baixei a SuperBike de outubro que o Totinho indicou o link.
Tem uma matéria, "Você está prestando atenção?", sobre o problema de o condutor de outro veículo entrar num cruzamento e não ver o motociclista, mesmo tendo olhado para a direção de onde o infeliz vinha.
Na edição de setembro eles abordaram o processo de olhar e ver - em resumo, o que os nossos olhos olham não é o que nosso cérebro processa (o quê realmente vemos).
Segundo a revista, se o motociclista (você) não teve o tempo ou o espaço para evitar uma colisão entre você e o carro que pulou à sua frente, é por que você provavelmente não estava muito longe quando ele surgiu. Se você estivesse pilotando a 45 km/h, por exemplo, você teria tempo pra escapar a não ser que você estivesse mais próximo que uns 30 metros. "Nessa distância", explica o psicólogo Graham Hole, "um motociclista produziria uma imagem na retina do condutor que teria uns 3 graus de altura e 1 grau de largura - muito acima do limiar de percepção para registro da imagem." O mesmo argumento é válido para uma velocidade de 90 km/h; a não ser que você estivesse pilotando a uma velocidade insanamente alta, há muito pouca chance de que você estivesse muito longe para que o condutor não o percebesse.
Auto-ignorar
O condutor alega que não lhe viu mas sabemos que você estava numa distância dentro da capacidade dele lhe ver muito bem. Você, razoavelmente, conclui que ele não estava prestando atenção. Mas isso não significa que ele simplesmente não se importou de olhar. Nós temos que entender como "prestar atenção" funciona; assim como a visão, isso envolve processos mentais que não são totalmente seguros.
Primeiro, é impossível prestar atenção a tudo (lembre-se, só uma pequena parte da nossa imagem é clara), assim temos que ser seletivos e prestar atenção só para o que é necessário. Se você prestar atenção para tudo que seus olhos veem, você estará perdido. A nossa escolha de no que prestar atenção acontece de duas maneiras: ou algo chama a nossa atenção (por exemplo, um cachorro atravessando a rua) ou nós conscientemente decidimos focar em algo (por exemplo, uma placa indicativa de direção). Na maior parte do tempo, esses processos "automáticos" e "seletivos" trabalham em harmonia e nós prestamos atenção para tudo o que nós precisamos. Entretanto, algumas vezes as coisas desandam.
Focus pocus
Reiterando, nós vemos o mundo por uma estreita janela de visão clara e não podemos focar tudo, assim faz sentido dirigir nossa atenção somente para o que importa, alterando nosso foco pela cena. Realmente, estudos mostram que condutores mais experientes examinam a cena mais amplamente que condutores menos experientes, que tendem a se fixar mais em faixas pintadas no chão e em placas de trânsito, por exemplo.
Vendo
O quê um condutor "que não lhe viu" procura quando ele está saindo de um cruzamento? Uma coisa, com certeza - ele não executou um checklist mental de todos os tipos de veículos que podem estar se aproximando.
Pesquisas indicam que, por causa da pressa em cruzamentos, condutores inconscientemente desenvolvem algumas dicas como base para checar a presença de outros veículos. O Dr. Hole explica:
"Assim, um farol aceso pode significar uma motocicleta e uma mancha horizontal pode significar um carro, e isso é tudo que pode ser necessário para julgar se é seguro ou não fazer o cruzamento."
Se o veículo que está se aproximando do cruzamento é de um tipo menos familiar - como uma moto com o farol desligado - ele não está "registrado" nas dicas e pode passar despercebido. Isso não significa que a moto estava invisível ou difícil de ser vista, só que a imagem dela não combinava com o quê estava “gravado” na mente do condutor naquelas dicas.
Vários estudos confirmam a teoria de que condutores falham em detetar coisas que eles não esperam ver. Conhecida como “cegueira de falta de atenção”, ou “visão seletiva”, esse princípio sugere que, se um condutor num cruzamento está esperando para ver carros, ele pode falhar para ver uma moto. Em um teste, foi mostrado aos participantes um filme com duas atividades – pessoas batendo palmas e um jogo de basquete – que foram superpostos; os participantes foram orientados a prestar atenção nas pessoas batendo palmas. Quando um homem fantasiado de gorila caminhou pela quadra de basquete, um terço dos participantes não o viram. Mesmo olhando as duas atividades, a atenção dirigida a uma delas serviu para cegá-los para a outra.
Veja a diferença
O quê acontece quando uma mudança inesperada acontece em uma cena familiar?
Investigações demonstraram que, quando um determinado detalhe numa cena é alterado, condutores tendem a notar a mudança só na cena em que eles normalmente prestam atenção – dentro do campo central de visão; outras alterações na periferia passam despercebidas. Isso sugere que nós só vemos os segmentos de uma cena para os quais nós focamos, ao contrário da nossa crença de que sempre vemos um panorama completo. “Nós estamos completamente desprevenidos em relação à pobreza da nossa representação do ambiente ao nosso redor”, diz o dr. Hole, “por que para todo lugar que olhamos parece estar representado em todos os detalhes”.
A inabilidade de identificar mudanças numa cena pode causar problema em cruzamentos, onde um condutor olha à direita, à esquerda e novamente à direita. Nesta olhada final à direita é extremamente importante identificar qualquer mudança – mas o condutor pode notar alterações só naqueles elementos que ele identificou na olhada inicial. Essa “cegueira para mudanças” pode acontecer em qualquer ponto quando a visão é interrompida; quando se vira a cabeça, quando se move os olhos ou pisca. Essas interrupções tomam mais tempo do que se imagina, explica o dr. Hole: dezoito por cento do nosso tempo total de visão é tomado por piscadas e movimentos dos olhos; durante este tempo estamos efetivamente cegos.”
Pense sobre isso (“Think”)
Quando estamos numa estrada, tenha em mente que ninguém presta atenção a tudo. Estamos atentos às coisas que precisamos perceber, que estão inconscientemente programadas de acordo com nossa experiência. Em outras palavras, estamos mais alertas para os perigos que esperamos. Condutores que só tem carros e caminhões na sua programação mental podem falhar em ver você e sua moto, mesmo que eles estejam olhando para você. Sem falar nos condutores distraídos por celulares, passageiros, música etc. Só por que você está muito visível e dentro do campo visual de um condutor não garante que ele não vai pular à sua frente. Para sua proteção, só existe um caminho, que é antecipar-se a eles. Nunca pressuponha que você está sendo visto; reserve-se um tempo para reagir mantendo-se alerta e preparado para o pior.
foto 1 - nosso motorista quer dobrar à direita e olha para ver o que está vindo. Ele registra o automóvel se aproximando (um Volvo).

foto 2 - ele olha para a esquerda para uma checada final para ver se é seguro entrar no cruzamento. Neste ponto ele retém a imagem da sua olhada inicial, o Volvo se aproximando à direita.
foto 3 - se ele agora decidir que tem tempo suficiente para passar antes do Volvo, o motociclista se ferra. Não é que o motorista não possa "ver" a moto, é que ele só registrou os elementos que estavam em cena na sua olhada inicial.

Tem uma matéria, "Você está prestando atenção?", sobre o problema de o condutor de outro veículo entrar num cruzamento e não ver o motociclista, mesmo tendo olhado para a direção de onde o infeliz vinha.
Na edição de setembro eles abordaram o processo de olhar e ver - em resumo, o que os nossos olhos olham não é o que nosso cérebro processa (o quê realmente vemos).
Segundo a revista, se o motociclista (você) não teve o tempo ou o espaço para evitar uma colisão entre você e o carro que pulou à sua frente, é por que você provavelmente não estava muito longe quando ele surgiu. Se você estivesse pilotando a 45 km/h, por exemplo, você teria tempo pra escapar a não ser que você estivesse mais próximo que uns 30 metros. "Nessa distância", explica o psicólogo Graham Hole, "um motociclista produziria uma imagem na retina do condutor que teria uns 3 graus de altura e 1 grau de largura - muito acima do limiar de percepção para registro da imagem." O mesmo argumento é válido para uma velocidade de 90 km/h; a não ser que você estivesse pilotando a uma velocidade insanamente alta, há muito pouca chance de que você estivesse muito longe para que o condutor não o percebesse.
Auto-ignorar
O condutor alega que não lhe viu mas sabemos que você estava numa distância dentro da capacidade dele lhe ver muito bem. Você, razoavelmente, conclui que ele não estava prestando atenção. Mas isso não significa que ele simplesmente não se importou de olhar. Nós temos que entender como "prestar atenção" funciona; assim como a visão, isso envolve processos mentais que não são totalmente seguros.
Primeiro, é impossível prestar atenção a tudo (lembre-se, só uma pequena parte da nossa imagem é clara), assim temos que ser seletivos e prestar atenção só para o que é necessário. Se você prestar atenção para tudo que seus olhos veem, você estará perdido. A nossa escolha de no que prestar atenção acontece de duas maneiras: ou algo chama a nossa atenção (por exemplo, um cachorro atravessando a rua) ou nós conscientemente decidimos focar em algo (por exemplo, uma placa indicativa de direção). Na maior parte do tempo, esses processos "automáticos" e "seletivos" trabalham em harmonia e nós prestamos atenção para tudo o que nós precisamos. Entretanto, algumas vezes as coisas desandam.
Focus pocus
Reiterando, nós vemos o mundo por uma estreita janela de visão clara e não podemos focar tudo, assim faz sentido dirigir nossa atenção somente para o que importa, alterando nosso foco pela cena. Realmente, estudos mostram que condutores mais experientes examinam a cena mais amplamente que condutores menos experientes, que tendem a se fixar mais em faixas pintadas no chão e em placas de trânsito, por exemplo.
Vendo
O quê um condutor "que não lhe viu" procura quando ele está saindo de um cruzamento? Uma coisa, com certeza - ele não executou um checklist mental de todos os tipos de veículos que podem estar se aproximando.
Pesquisas indicam que, por causa da pressa em cruzamentos, condutores inconscientemente desenvolvem algumas dicas como base para checar a presença de outros veículos. O Dr. Hole explica:
"Assim, um farol aceso pode significar uma motocicleta e uma mancha horizontal pode significar um carro, e isso é tudo que pode ser necessário para julgar se é seguro ou não fazer o cruzamento."
Se o veículo que está se aproximando do cruzamento é de um tipo menos familiar - como uma moto com o farol desligado - ele não está "registrado" nas dicas e pode passar despercebido. Isso não significa que a moto estava invisível ou difícil de ser vista, só que a imagem dela não combinava com o quê estava “gravado” na mente do condutor naquelas dicas.
Vários estudos confirmam a teoria de que condutores falham em detetar coisas que eles não esperam ver. Conhecida como “cegueira de falta de atenção”, ou “visão seletiva”, esse princípio sugere que, se um condutor num cruzamento está esperando para ver carros, ele pode falhar para ver uma moto. Em um teste, foi mostrado aos participantes um filme com duas atividades – pessoas batendo palmas e um jogo de basquete – que foram superpostos; os participantes foram orientados a prestar atenção nas pessoas batendo palmas. Quando um homem fantasiado de gorila caminhou pela quadra de basquete, um terço dos participantes não o viram. Mesmo olhando as duas atividades, a atenção dirigida a uma delas serviu para cegá-los para a outra.
Veja a diferença
O quê acontece quando uma mudança inesperada acontece em uma cena familiar?
Investigações demonstraram que, quando um determinado detalhe numa cena é alterado, condutores tendem a notar a mudança só na cena em que eles normalmente prestam atenção – dentro do campo central de visão; outras alterações na periferia passam despercebidas. Isso sugere que nós só vemos os segmentos de uma cena para os quais nós focamos, ao contrário da nossa crença de que sempre vemos um panorama completo. “Nós estamos completamente desprevenidos em relação à pobreza da nossa representação do ambiente ao nosso redor”, diz o dr. Hole, “por que para todo lugar que olhamos parece estar representado em todos os detalhes”.
A inabilidade de identificar mudanças numa cena pode causar problema em cruzamentos, onde um condutor olha à direita, à esquerda e novamente à direita. Nesta olhada final à direita é extremamente importante identificar qualquer mudança – mas o condutor pode notar alterações só naqueles elementos que ele identificou na olhada inicial. Essa “cegueira para mudanças” pode acontecer em qualquer ponto quando a visão é interrompida; quando se vira a cabeça, quando se move os olhos ou pisca. Essas interrupções tomam mais tempo do que se imagina, explica o dr. Hole: dezoito por cento do nosso tempo total de visão é tomado por piscadas e movimentos dos olhos; durante este tempo estamos efetivamente cegos.”
Pense sobre isso (“Think”)
Quando estamos numa estrada, tenha em mente que ninguém presta atenção a tudo. Estamos atentos às coisas que precisamos perceber, que estão inconscientemente programadas de acordo com nossa experiência. Em outras palavras, estamos mais alertas para os perigos que esperamos. Condutores que só tem carros e caminhões na sua programação mental podem falhar em ver você e sua moto, mesmo que eles estejam olhando para você. Sem falar nos condutores distraídos por celulares, passageiros, música etc. Só por que você está muito visível e dentro do campo visual de um condutor não garante que ele não vai pular à sua frente. Para sua proteção, só existe um caminho, que é antecipar-se a eles. Nunca pressuponha que você está sendo visto; reserve-se um tempo para reagir mantendo-se alerta e preparado para o pior.
foto 1 - nosso motorista quer dobrar à direita e olha para ver o que está vindo. Ele registra o automóvel se aproximando (um Volvo).

foto 2 - ele olha para a esquerda para uma checada final para ver se é seguro entrar no cruzamento. Neste ponto ele retém a imagem da sua olhada inicial, o Volvo se aproximando à direita.
foto 3 - se ele agora decidir que tem tempo suficiente para passar antes do Volvo, o motociclista se ferra. Não é que o motorista não possa "ver" a moto, é que ele só registrou os elementos que estavam em cena na sua olhada inicial.

