nina em bh - relato da volta na pág. 17

Grupo de discussão geral sobre motos.
Robson

Re: nina em bh

Mensagem por Robson »

Nina já chegou em BSB.
Avatar do usuário
Fernanda-DF
Mito
Mensagens: 17324
Registrado em: 23 Dez 2007, 21:35
Localização: em casa!!!!
Contato:

Re: nina em bh

Mensagem por Fernanda-DF »

;-)
-oo-

O boss é meu broder.
Avatar do usuário
decoZ
Mito
Mensagens: 10090
Registrado em: 10 Abr 2008, 15:30
Localização: Salvador BA

Re: nina em bh

Mensagem por decoZ »

Beleza ;-) ;-)
Suzuki RV 90,Yamaha RS 125,Honda ML125,Yamaha DT 180, Agrale 16.5/27.5 Elefantre/27.5,XL250 R, Honda 450 DX, Yamaha RD 350 LC, Honda Hornet e New Hornet, Kawasaki Z 1000, Suzuki DRZ 400 E

Imagem EU FUI, E SOBREVIVI, FOI BOM DEMAIS
Avatar do usuário
ltadeu
Motoqueiro
Mensagens: 4474
Registrado em: 24 Dez 2007, 11:05
Localização: são carlos-sp

Re: nina em bh

Mensagem por ltadeu »

decoZ escreveu:Beleza ;-) ;-)
SEM FOTOS sem parabéns
mesmo assim meNina de ouro
alegrou a semana de trabalho para nós mortais
:dce: :beer: :dce:
_______________________________________
todo cuidado é pouco, a aventura pode ser louca, o aventureiro não.

vai qui ô vô tá lá. by fernanda

1 2 3 e agora
Avatar do usuário
Cabral
Motociclista
Mensagens: 1527
Registrado em: 23 Dez 2007, 19:46
Localização: Belzonte

Re: nina em bh

Mensagem por Cabral »

meladdo escreveu:
nina escreveu:falar nisso, já vi carro popular, picape e hoje uma moto que do alto me pareceu uma shadow se arrastando para subir essa rua. o ka parou, que eu vi, cinco vezes. freio de mão, primeira, solta a embreagem. o carro não vai. a picape patinou na subida, haja tração. a moto - daqui de cima ouvi - baixou todas as marchas pra vencer a inclinação. fora a recorrência de duas, três reduzidas do mesmo carro subindo, perfeitamente reconhecíveis por quem está na rua.
vc que ainda não viu as pirambeiras que tem aqui em Araxá... :roll:
Pelo que eu conheço de Araxá, as mesmas não passam de meras inclinações do solo comparadas as elevações presentes na região onde o Jota mora.... :rof: :rof: ( na verdade não mora, esconde... maior buraco }:) ....)

Por falar em Araxá, Mellado, voce conhece as 3 cidades do triangulo que começão com B? ( tá eu sei que é piada velha e batida mas não podia deixar de fazer :lol: :lol: )
Operação Fórum Despoluído: Você já Gerenciou seus Ignorados Hoje? in memorian
"Cara, se tem uma coisa da qual eu tenho raiva é de gente que reclama por esporte." By PriesT
Avatar do usuário
Smoker
Mito
Mensagens: 34319
Registrado em: 30 Dez 2007, 20:37
Localização: Niterói-RJ

Re: nina em bh

Mensagem por Smoker »

Bom saber que tudo correu bem, Nina.

Parabéns aí pelo viagem. Botou muito marmanjo no chinelo. ;-)
"Aqui a criança chora e a mãe vira de costas"

B12S

Russo escreveu:Mas é isso ai... no motociclismo há espaço para todos, para os que gostam de tecnologia, pros que curtem velharia e até para os babacas caras que não conseguem perceber isso, eheheheh ...
XTman
Dinossauro
Mensagens: 5917
Registrado em: 24 Dez 2007, 22:35

Re: nina em bh

Mensagem por XTman »

Será que ela ainda tá escrevendo o relato da viagem? 20 páginas... :lol: :lol: :lol:
Criamangostas
Mito
Mensagens: 10116
Registrado em: 25 Nov 2008, 16:14
Localização: Andando de scooter.

Re: nina em bh

Mensagem por Criamangostas »

Robson escreveu:Nina já chegou em BSB.
Ótimo. No aguardo dos relatos e... fotos? (Quem sabe, né?) ;-)
Imagem
XTman
Dinossauro
Mensagens: 5917
Registrado em: 24 Dez 2007, 22:35

Re: nina em bh

Mensagem por XTman »

Acho que ela tá dormindo...
Avatar do usuário
Fernando - BH
Motoqueiro
Mensagens: 3364
Registrado em: 24 Dez 2007, 16:38
Localização: BELÔ

Re: nina em bh

Mensagem por Fernando - BH »

XTman escreveu:Acho que ela tá dormindo...

Dormindo no serviço ???????? :shock:
"A religião é considerada pelas pessoas comuns como verdadeira, pelos sábios como falsa e pelos políticos como útil." Seneca 4 AC - 65 DC
Avatar do usuário
m@gro
Dinossauro
Mensagens: 7459
Registrado em: 26 Dez 2007, 12:15
Localização: Cachoeira do Sul

Re: nina em bh

Mensagem por m@gro »

Parabéns Nina...show de passeio....bota "minina de corage" nisto....


abração

m@gro
Rodrigo - Ctba
Motoqueiro
Mensagens: 2894
Registrado em: 25 Dez 2007, 14:46
Localização: Curitiba - PR

Re: nina em bh

Mensagem por Rodrigo - Ctba »

Show!
nina

Re: nina em bh

Mensagem por nina »

ow, gente, se eu soubesse que vcs esperavam um relato alegre, tinha dourado mais a pílula...

BH - Brasília/ 24jan2010

Não gosto de viajar em finais de semana. As estradas ficam cheias de gente com pressa e imprudentes e isso numa pista simples, de mão dupla, não costuma ser a coisa mais tranquila do mundo.

Eu tinha que trabalhar na terça-feira. Na quarta anterior foi aniversário da Ana e claro que eu não viajaria na quinta seguinte. Quinta em BH é dia de Chops e mais claro ainda que eu não viajaria na sexta. Poderia viajar na segunda, mas também não gosto de viajar de volta na véspera de voltar ao trabalho, preciso de pelo menos um dia pra descansar e colocar as coisas em ordem. Sobraram o sábado e o domingo, dias em que eu não gosto de viajar. Conversando com os meninos de BH cheguei à conclusão de que o domingo tinha chance de ser um dia de estrada vazia que o sábado. Então preparei-me para sair no domingo mesmo.

Passei a sexta ressuscitando da minha última noite de Chops e o sábado meditando na casa do Jota, pra levantar cedinho no domingo.

O Robson tinha me mandado pelo correio a calça de cordura dele - aposentada por bons serviços prestados - pra eu usar se não ficasse absurdamente grande. A calça, claro, ficou um pouco grande, mas por cima de um short, duas blusas e um protetor de coluna, ficou perfeitamente usável.

Jota levantou às seis horas, a moto já estava pronta, eu já estava pronta, já tinha até tomado café. Enquanto eu desci para ver as últimas preparações, ele chegou na garagem já todo paramentado pra me levar até a saída de BH.

Minha primeira vitória foi sair da garagem sozinha. Subimos umas ladeirites até sair da cidade e ainda bem que ele não percebeu quando deixei a moto morrer.

Imagem

Às sete nos despedimos no posto e segui meu rumo. Minha primeira parada seria Paraopeba, a menos de cem quilômetros de BH. Ali já tinha dado pra perceber que eu dividiria minha estrada com, no mínimo, cegonhas carregadas de Fiats e Hyundais. Com o tanque cheio e 88km percorridos, nem abasteci. Só me estiquei, fumei um cigarrim e fui em frente.

Até Três Marias, que são bem uns 150km, foram tantas ultrapassagens sem lógica, tantos motoristas competindo uns com os outros, tanta gente forçando passagem onde só cabe um carro se o que está atrás meter o pé no freio ou então sair da pista, que parei de contar as imprudências no terceiro sinal de luz que alguém me deu enquanto ultrapassando na minha faixa, pra eu sair do caminho.

O primeiro que fez isso eu nem tinha percebido que estava ultrapassando. Só me toquei mesmo quando o sinal alto espatifou-se na minha cara, me expulsando - pelo menos a tempo - pro acostamento.

Andar de moto me deixa tão feliz e eu estava tão mais feliz ainda de pegar a estrada de novo que demorei pra perceber, mesmo desconfiada, que o trânsito seria bem diferente daquele de um dia de semana e que isso me exigiria outra atitude pilotando.

Então era isso. Metade do meu tesão de estar de novo naquela estrada tinha ido pro saco em razão da atenção redobrada que me exigiria a imprudência dos outros.

Houve situação em que seis carros revezaram-se atrás de uma cegonha. Era um ultrapassando o outro, sem parar, os carros que vinham em direção contrária tendo que descer pro acostamento, mas eram sempre os mesmos seis - sempre atrás da mesma cegonha. Eu ali, quieta lá no fundão, esperando aquela competição acabar pra seguir meu caminho sossegada. Só que aquela trança de carros na minha frente forçando passagem sem parar foi me deixando preocupada, porque, se não respeitam a si mesmos, se não pensam no estrago que pode causar uma colisão entre seis carros atrás de uma cegonha, certamente não dão a mínima pro infeliz que está sobre uma moto. Perdi a conta de quantas vezes precisei reduzir de uma vez pra caber um carro entre mim e o último da fila à minha frente. Então saí pela única saída que me pareceu capaz de me safar daquele furdunço de carros se embolando, apesar de ser proibido e, em determinadas situações, mais uma demonstração de imprudência: passei todos pelo acostamento.

Definitivamente, final de semana não é dia de viajar.

Mas a estrada me parece sempre generosa com quem gosta dela e a respeita, de forma que, a uns 45 ou 50 km de Três Marias eu já vinha pensando se saberia achar minha capelinha quando entrei numa curva e travei os braços: era aquela curva. Eu tinha, sem querer, reconhecido a curva, e isso já me alegrou tanto que quando ela apontou lá na encosta, branquinha, eu festejei dentro do capacete e nem senti vontade de fotografá-la dessa vez, quase como se tivéssemos tornado a ser amigas próximas que se veriam de novo em pouco tempo.

Sorri sozinha quase todos os últimos 40 km até o Mar Doce, onde o mesmo frentista que me atendeu na ida, atendeu na volta. Quando eu apontei na área das bombas, mesmo um pouco diferente de quando tinha passado ali há uns dez dias, por causa da calça de cordura, o moço veio de lá longe, de outra bomba, sorrindo, me receber. "E aí, tá voltando? Como foi a viagem? Cê 'inda leva umas seis horas pra chegar em Brasília?" Tirei uma foto com esse moço pra me lembrar do moço que se lembrou de mim num posto em Três Marias e me despedi dele mais certa ainda de que as pessoas que nunca tiveram o prazer de viajar de moto seguem enlatadas pelas estradas, presas, algemadas, totalmente ao largo da experiência gratificante que é conhecer gente inusitada, ver paisagens escondidas, ouvir o chão passando dentro do capacete e saber quilômetro por quilômetro a história de cada caminho.

Estava meio apertadinha pra ir ao banheiro mas resolvi ir só na próxima parada, em João Pinheiro. Aquele movimento na estrada não me permitia lembrar de última hora que precisava ir ao banheiro: eu tinha que subir na moto e entrar naquele ritmo pra não ser atropelada por nenhum daqueles pilotos de carros mil de fim de semana.

Até João Pinheiro, nada de mais podre no reino da Dinamarca: eu deixava aquela filona de motoristas apressadinhos entre mim e uma cegonha, esperando pacientemente que todos a ultrapassassem, para que eu pudesse fazê-lo em segurança. Foram mais de vinte cegonhas durante todo o caminho, seguramente. Umas duas eu ultrapassei mais de uma vez, por que, decerto, passaram por mim enquanto parei para abastecer. Mas só duas. Quando apontava outra cegonha lá na frente eu pensava "Putz, essa aí de novo", por causa dos mesmos carros em cima, mas quando eu me aproximava o suficiente para checar a placa, tinha certeza de que era outra cegonha carregando carro pra Brasília. No trevo de Montes Claros eu achei que todas elas fossem me deixar em paz, mas só umas poucas viraram à direita: a maioria esmagadora continuou até Brasília.

O problema não são as cegonhas. O problema são os carros querendo ultrapassá-las e uns aos outros. Eu me mantive entre 130 e 140 desta vez, durante bem mais tempo que na ida. E mesmo assim não foi suficiente para que todo e qualquer carro, fosse ele um Corolla, um Polo ou um Corsa, um Fiesta, abrisse mão de tentar passar por cima de mim, como me considerando um incômodo mosquito esmigalhado no pára-brisas. O engraçado é que mais de uma vez cruzei com os mesmos Alonsos e Schumachers no mesmo posto de gasolina. Tive vontade de perguntar a alguns deles "Ué, mas não foi você que me jogou pro acostamento ali atrás pra me ultrapassar e agora chega depois de mim no posto de gasolina? Adiantou?" mas resolvi não entrar nesse jogo sangrento que jogam esses motoristas incapazes de um sorriso, um bom dia, um por favor, um obrigado. Não houve um sequer que, me reconhecendo no posto, fosse amistoso apenas com o olhar. Todos tinham expressões pesadas, carrancudas e de quase ódio. Deve ser uma síndrome qualquer que só se manifesta em motoristas de final de semana, corroendo-lhes o humor e o bom senso. Só eu sorria quando estava abastecendo: só eu olhava no rosto do frentista que me atendia, só eu olhava pras famílias viajando de carro, só eu os enxergava como outras pessoas tão pessoas como eu. Para todos eles, eu era nada. Algumas esposas olhavam com certa curiosidade levadas pela inocência de suas crianças mas, ao notar que eu havia percebido, desviavam o olhar antes que eu tivesse tempo sequer de sorrir. "Por que", me perguntei. É tão difícil assim sorrir ou acenar com a cabeça pra alguém que andou os últimos cem quilômetros com você? Qual o problema em dar um tchauzinho, em desejar "Boa viagem" e enxergar no outro um viajante como você? Ou será que a roupa preta, o rosto avermelhado e o cabelo desgrenhado tenham me transformado num marginal só por que era domingo? Onde estavam todas aquelas pessoas gentis que eu encontrei na ida, que eu encontrei indo e voltando de São Paulo, no ano passado? Essas pessoas de carne e osso devem, merecidamente, descansar aos finais de semana, por que encontrei muito poucas delas - e estavam quase todas operando bombas de gasolina.

Fui ultrapassada por um carro que também estava sendo ultrapassado por outro: esse segundo ultrapassava o primeiro pelo acostamento da mão contrária. Não sendo suficiente, vinha um terceiro atrás do primeiro, forçando passagem entre ele e - adivinha? - a moto pra ver se, sendo tão esperto, conseguiria aproveitar o imbróglio dos outros dois pra passar por todos de uma vez.

Em João Pinheiro tive a sorte de ouvir o Robson me responder "Vai com calma, você está passeando, não precisa de pressa" quando eu contei a situação em que estava o trânsito. Mesmo não me sentindo vítima daquele ímpeto de atropelar e seguir em frente, o clima fica tenso e a gente tende, mesmo sem querer, a seguir na mesma tocada que está imperando. Ouvi-lo falar aquilo foi um retorno à (minha) razão.

Então comi meu pão com queijo, tomei uma coquinha mirim de garrafinha, fui ao banheiro, lavei o rosto e as mãos. Fumei dois cigarros, comprei um pacote de jujuba e comi quase metade, pro açúcar me tranquilizar um pouco e pra dar tempo de outros pilotos que tivessem ficado pra trás passarem por mim e me deixarem a estrada livre e em paz.

Talvez eu estivesse mal acostumada - muito mal acostumada - com a gentileza e educação ímpares de todos os mineiros que me deram bom-dia, que me indicaram o caminho, que me ofereceram cerveja - cara e barata - ou me sugeriram um suco de abacaxi com melancia para tomar, que me deram informações, que me sorriram, que me levaram pra cima e pra baixo, que me abraçaram e apresentaram suas famílias, suas namoradas e filhos, que me ensinaram, com toda a paciência do mundo, a entrar e sair de uma garagem, que fizeram caminhos alternativos pra eu não enfrentar ladeiras intimidadoras.

O bálsamo de conviver por pouco mais de uma semana com o povo de raízes e índole iguais às de minha mãe me treinou mal e foi um choque voltar à vida real logo na estrada.

Enfim, meu próximo destino era Paracatu. Encontrei dessa vez apenas um trecho em meia pista e uma fila enorme esperando para passar. Como ninguém havia sido solidário comigo até ali, com exceção de alguns motoristas das cegonhas, que me deram passagem e buzinaram de volta quando os agradeci, não vi mal em passar a fila toda pelo acostamento, onde havia uma sombra boa sob a qual aguardava, sentado à beira do acostamento, o rapaz responsável pela liberação do bloqueio.

- Boa tarde, tudo bom? Posso roubar um pedacinho dessa sua sombra?

- Claro, encosta aqui, ó.

- É, ficar embaixo desse sol não é brincadeira não, e eu já estou derretendo embaixo desse capacete.

- Tem problema não (olhando a placa da moto), cê tá indo pra Brasília?

- Sim, tô voltando de Belo Horizonte.

- Ainda faltam uns 400 km?

- Acho que não é isso tudo não. Cê sabe se vai demorar muito a liberar?

- Mas depende de onde vc vai dentro da cidade, né? E deve demorar um cadim, sim, uns dez minutos.

- Ah, dez minutos tá beleza, rapidinho. Achei que ocê ia me dizer meia hora, aí eu ia virar sopa com esse calor. Mas é claro, faz sentido mesmo. Mas a minha casa é pertinho da entrada da cidade, passa bem do lado da pista.

- É Samambaia, por ali?

- Não, não, no Cruzeiro.

- Ah, tá, conheço um pouco de Brasília.

- Ah, que legal!

Nessa hora vi exatamente à frente do bloqueio, no meu lado da pista, três grandes cruzes brancas enfileiradas com iniciais de três nomes e a mesma data. "Que ótimo lugar para parar...", pensando em como é bom a realidade estapear a gente assim de vez em quando, pra gente se lembrar que mesmo numa reta como aquela é possível perder a vida. Mesmo que se esteja em grupo.

Imagem

O rádio chamou e o moço me diz:

- Quando passar o Fox preto cê pode passar.

- Ah, que bom, foi rapidinho, tá vendo? Já posso botar o capacete, então?

- Já, já, daqui a pouco ele passa.

- Ô, que bom, muito obrigada, viu?

- De nada, boa viagem, viu?

- Muito obrigada, bom dia pra vc!

Me lembrei do motorista da cegonha na minha frente que desceu da boléia antes que eu resolvesse passar toda a fila e me deu um "Boa-tarde, tudo bem?" sorridente que me fez pensar por que as pessoas ditas educadas e de um certo nível social são sempre as menos educadas na maioria das situações.

Até Paracatu deixei mesmo de me importar com as ultrapassagens inseguras. Era o tempo todo de olho no retrovisor pra ver se vinha um louco mas mesmo assim não consegui deixar de me assustar com algum que viesse surgido do nada de repente passando por mim.

Errei a entrada do posto Ale em Paracatu e entrei num Ale antes, na verdade um quilômetro antes do outro. A Vivo estava sem sinal e usei o orelhão pra avisar meu pai e o Robson que havia parado. Como na ida o tal do SMS não funfou, dessa vez preferi ligar uma parada pra um, outra parada pra outro, e todos se comunicariam e ficariam sabendo onde eu estava, sem eu precisar pagar mensagens que nunca chegariam ao destino mesmo. Senti um seco na boca e me lembrei de Fernanda. Tomei dois copões de suco de goiaba, geladinho e delicioso.

Naquele frenesi de reduz, sobe marcha, acelera, reduz, sobe marcha, acelera típico de estrada movimentada, a caminho de Cristalina - ainda no início da tarde - percebi um esgoelar estranho na moto. "Putz, era só o que me faltava, a moto dar pau". O giro já estava quase estourando e a moto não arredava dos 120. "Que diacho, o que será isso?!" Desacelerei, apurei o ouvido, o esgoelado lá, quase instintivamente fui checar a marcha pra ver se tinha engripado alguma coisa. A esperta estava de quarta há uns dez quilômetros, pelo tempo entre ter percebido o barulho - que já devia ser perceptível há mais tempo - e ter descoberto o erro. Pensei em omitir esse pequeno detalhe deste relato mas não achei justo com quem porventura o lesse.

Assim como, em razão do que aprendo todo dia no fórum e principalmente do compromisso com as pessoas que atuam como bases nessas minhas primeiras viagens, não omiti o acostamenteo e não ultrapassei mais ninguém por ali, mesmo que não me tenham faltado nem vontade nem oportunidade.

Cheguei em Cristalina cedo ainda, acho que eram, no máximo, umas três da tarde, se isso. Tinha adiantado bem minha viagem, chegaria cedo a Brasília, então resolvi deixar - de novo - o trânsito passar e gastar um pouco de tempo no Centro Mundial de Cristais, ou nome que o valha, olhando badulaques vítreos que me encantam e refrescam a mente.

Liguei pra minha mãe.

- Mãe, tô em Cristalina, como tô adiantada, vou ali nos cristais passar um pouco de tempo, que toda vez que eu passo em Cristalina eu sempre quero ir e nunca vou.

- Aaaaah, minha filha, compra uma lembrancinha pra sua avó, que ela tá o dia todo rezando sem parar procê chegar bem...

Putz.

- Tá bom, mãe, eu compro.

Atravessei a rua e fui lá.

- Boa tarde. Cês tão passando cartão de débito?

- Só o Visa.

- Eita. O meu é Master. Onde tem Banco do Brasil?

- Só na cidade.

- Nuh. No posto não tem não?

- Peraí que vou ali olhar.

Dois minutos depois...

- Moça. tem sim.

- Pôxa, acabei de sair de lá, nesse sol, mas tudo bem, Eu escolho e você guarda pra mim, vou no posto, saco dinheiro e volto.

Pra levar lembrancinha pra avó, tinha que levar pra tia e pra prima que moram com ela. Pra levar pras três, tinha que levar pra boadrasta, que é um poço de ciúme. Pra levar pra boadrasta, é claro que tinha que levar pra mãe, o que, obviamente, me forçava a levar pras irmãs. A essa altura, não faria mal levar umazinha pra mim mesma, que eu também mereço.

A conta, com desconto de dez purça, deu 57 legais.

Lá foi a Nina atravessar a BR de novo pra voltar pro posto, mega movimentado, só pra ir no caixa eletrônico atender a um pedido da mãe.

Caixa eletrônico esse que era um só e estava fora de operação. Quase desisti, mas pedido de mãe é pecado se não atender. Voltei nos frentistas, um sorridente me atendeu.

- Moço, onde tem outro caixa do Banco do Brasil? Ali nos cristais não tá passando o Master e o caixa do posto tá quebrado.

- A senhora volta pela BR, vai ter que entrar na cidade, pega o viaduto...

- Ah, entrar na cidade? Nossa, neeeeeeeeeeem... tá longe...

(Eu já pensava em maldizer as cidades pequenas e xingar a roça que não tem uma pôrra dum caixa do Banco do Brasil quando o moço me pergunta...)

- De quanto a senhora precisa?

(Epa. Parecia que ele ia dar um jeito.)

- A conta ali deu 57 reais, eu ia tirar 60 no banco.

- Peraí.

E sumiu entre bombas e uniformes verdes e brancos.

Em menos de dez minutos...

- Moça, a gente tem cinquenta reais. A senhora pode passar ali no caixa e falar com aquela moça ali que ela já sabe o que é.

Então era o rapaz simples que trabalha num posto à beira da "roça" que ia se condoer do meu problema e, muito mais que isso, solucioná-lo? Bem-feito, Nina, isso que dá passar quase um dia inteiro olhando pra rostos estúpidos e xingando cagadas na estrada. Vai deixar essa hostilidade te dominar, vai.

- Nossa, você salvou minha vida, minha mãe pediu pra eu levar uns cristais pra minha avó, já imaginou se eu não levo?

- Não, que isso, pode ir lá.

- Muito obrigada, viu?

Chego no caixa.

A operadora já está informada e me sussura:

- Só um minutinho que meu gerente está bem ali.

Pra depois dizer numa altura que os motoristas que esperavam na fila pra pagar pudessem ouvir:

- Então toma aqui, seus cinquenta reais de troco, e a senhora vai pagar cinquenta no cartão e cinquenta em dinheiro, é isso?

- É.

Só pensando no que responder se alguém perguntasse como é que cabem cem reais de combustível no tanque de uma moto.

Passou o cartão no débito, eu guardei os cinquenta reais, agradeci demais, ela me sorriu com cumplicidade, passei pelo moço que me atendeu de novo e agradeci de novo e atravessei a rua de novo, pra ver o que ia ter que tirar da compra pra caber nos cinquenta reais.

Beleza, passeio de beira de estrada feito, últimas lembrancinhas devidamente embrulhadas ensacadas e guardadas, faltavam 120 km pra Brasília, era cedo, estava sol, eu só tinha pegado uma chuvícula de nem cinco minutos no trecho anterior, a calça de cordura suportou tranquilamente, eu nem estava cansada, subi feliz alegre saltitante na moto só pensando em chegar em casa.

E o pior, bem pior, a cem quilômetros de casa, me aguardava.

Já depois de Luziânia, rumo a Valparaíso, o trânsito urbano se intensificou. Tinha acabado de sair do trânsito de estrada e o ritmo - de todos - era mais ou menos o mesmo.

Estava na pista da esquerda, pois o trecho ali já é duplicado.

Rodo pelo lado direito da pista, pois sempre me lembro do Jhonny Hu ensinando a manter a moto na marca em que rodam os pneus dos carros, que, ao passarem por ali, já limparam a pista. E do lado direito eu conseguia ver melhor o trânsito à frente. Além disso, fica claro pra algum doido que queira à força passar que eu não estou ali para impedi-lo. Portanto, eu estava na metade direita da pista da esquerda, não no corredor. Estava, pra dizer a verdade, bem longe do corredor.

Um carro - que me pareceu um Uno - vinho, de faróis acesos às quatro e pouco da tarde, chega muito próximo atrás da moto.

Acho que é falta de atenção do motorista e arredo um cadim mais pra direita, só pra ele não me encostar, mesmo sem querer.

Ele força mais ainda a passagem entre mim e o canteiro central de grama, em desnível de meio metro em relação à pista. Entre ele e a pista da direita, obviamente mais cheia de carros que a da esquerda, eu.

Como toda descrição de momentos de pânico, nanossegundos duram meses e eu assisti apavorada durante um ano aquele carro me imprensar contra os outros carros sem o menor constrangimento, me jogar na outra pista num lugar que não tem a menor condição de se usar o corredor, até pela velocidade geral das pessoas ali.

Olhei pro corredor, não tinha como entrar ali. Não tive segurança de fazê-lo e minha única reação foi baixar a mão esquerda e fazer a ele um sinal de "Calma, devagar, eu tô aqui, não tenho como sair daqui, assim você vai passar por cima de mim!"

Ou ele resolveu não me atropelar nem me esmagar feito chiclete ou consegui sair da frente dele e passar pra outra pista.

Meu susto e meu ódio eram tantos que, me julgando já segura uns dois carros à frente - levantei o braço e disse - pra mim mesma - "Vai tomar no meio do seu cu, seu filho da puta assassino!"

Mas não era dia de reagir mesmo a nada. Irresponsáveis não merecem reação e paguei muito caro pela minha.

Não sei se o dedo em riste o irritou ainda mais ou se ele já estava meio disposto mesmo a me matar - sinto muito, não consigo aliviar prum motorista que joga uma moto sobre outros carros por que quer passar entre ela e um canteiro central; quem conduz assim, pra mim, se não intenciona, assume o risco de matar - e o insano resolveu me seguir, por entre os outros carros, como se moto fosse, com aqueles faróis acesos no meu retrovisor, costurando o trânsito exatamente por onde eu passava, sem encontrar obstáculo físico algum que o fizesse pelo menos diminuir a velocidade.

Acelerei como louca e tive medo que o tremor que tomou conta de mim dos pés à cabeça fosse suficiente pra me fazer perder o controle da moto. Eu tremia de sentir os joelhos batendo no tanque, os ombros e cotovelos sambando e aquele cara atrás de mim.

Vi uns dois postos de gasolina no caminho e pensei em entrar num deles e pedir socorro por que, enquanto ele estivesse à solta na estrada, eu corria risco. Só que minha moto seria fácil de reconhecer, minha mala na garupa é de um dourado fraco, mas dourado. Meu capacete vermelho e eu carregava uma mochila nas costas. Seria fácil me ver entrando em algum posto. "Se estiver armado", pensei, "me mata aqui mesmo".

Tive pânico em pensar na hipótese de ele tirar uma arma e me acertar pela janela, por que absolutamente nada me faria acreditar que era só um peguinha naquela situação. Se ele queria só me assustar e me dar uma "lição" já o tinha feito; não havia motivo em continuar me perseguindo, colocando a si próprio e as pessoas que carregava em risco.

Eu pensando que tinha sido só uma rusga de trânsito e o cara me seguindo, farol aceso, costurando entre os outros?? O Fernando Lamas em BH tinha me dito que voltando domingo eu ia pegar no fim da tarde uns doidos voltando pra Brasília dos sítios e cachoeiras próximas, mas eu nunca imaginei que pudesse chegar a tanto.

Não sei quanto tempo nem qual distância corri. Sei que passei posto da PRF a mil porque a única coisa que me interessava era sair da vista daquele indivíduo. Acho que nunca passei um pavor tão grande no trânsito, mesmo em vias de presenciar uma batida ou um descontrole em pista molhada.

Acidentes acontecem mas quando o çerumano age deliberadamente com o propósito de prejudicar, a maldade é tão grande que não há salvação possível senão a tentativa de fuga.

Entrei em Brasília ainda bastante trêmula e nem percebi onde estava: decidi passar na casa da minha mãe primeiro pra ela me ver e ficar mais tranquila e errei o caminho. Não consegui reconhecer quase nenhuma rua e minha cabeça não conseguia resolver em que velocidade eu deveria ir, pois não estava conseguindo nem identificar quais eram as velocidades das pistas em que estava.

Sorte que ninguém percebeu o tremor das mãos ou a fala boba, nem na casa da minha mãe nem nos telefonemas que dei avisando que tinha chegado e mentido que tinha corrido tudo bem, mas hoje de manhã meu corpo incomumente exaurido com dores por todos os lados - parte de dentro das coxas, ombros, lombar, pescoço, tornozelos - me lembrou direitinho que, realmente, um domingo na estrada pode acabar com a viagem de qualquer um.

Tive, sim, meus momentos de alegria nessa volta, como passar de novo pelo São Francisco e acenar para ele dessa vez com um sorriso e não com a voz embargada; ver minha capelinha e aprender qual é mesmo a curva em que ela fica; conversar com o moço do bloqueio da estrada, rodando quase um quilômetro depois naquela espécie de pré-asfalto, como se tivessem passado um rastelo por ali; ser surpreendida pela gentileza do moço no posto em Cristalina; ver o amanhecer na saída de Belo Horizonte e o Jota me apontando pra ele na minha frente; ouvir o "Boa viagem" dos frentistas e "Já tá voltando?" daquele em Três Marias;

Imagem

poder parar em Cristalina; ver que me saio razoavelmente bem de alguns apuros inerentes a qualquer viagem rodoviária; resolver que baú de moto é a coisa mais linda do mundo; mas, infelizmente, a última memória que terei dessa volta não será a entrada da minha cidade, ainda de dia, num domingo calmo: minha última memória - e eu queria tanto que fosse romântica ou então engraçadíssima pra contar pra vocês de forma leve e fechar com chave de ouro - vai ser daqueles faróis ensandecidos me perseguindo praticamente na porta da minha casa, depois de eu passar quase um dia inteiro fugindo do trânsito na estrada. Qual o objetivo daquilo, graças a Deus nunca saberei.
Avatar do usuário
Anubis
Motoqueiro
Mensagens: 2623
Registrado em: 15 Jan 2008, 09:23

Re: nina em bh

Mensagem por Anubis »

Legal ;-)

Nina, sua profissão poderia ser jornalista. Você escreve muito bem
nina

Re: nina em bh

Mensagem por nina »

eu tentei. mas não passei no vestibular e não quis tentar de novo, rsrs...
Avatar do usuário
m@gro
Dinossauro
Mensagens: 7459
Registrado em: 26 Dez 2007, 12:15
Localização: Cachoeira do Sul

Re: nina em bh

Mensagem por m@gro »

Nina...

Escrevo mal pra c*lho...parabéns pela dissertação, admiro que tem este dom....

inté.

m@gro
Avatar do usuário
Ryu
Motociclista
Mensagens: 1182
Registrado em: 09 Mai 2009, 12:27
Localização: SP-SP

Re: nina em bh

Mensagem por Ryu »

Acompanhando seu relato Nina só tenho a dizer que vc é uma mulher muito corajosa e verdadeiramente motociclista! ;-)
Parabéns pela bela viagem, e obrigado por nos relatar sua experiência tão bacana.
Fiquei seu fã! :D

Obs: não deixe este otário do Uno tirar o brilho de sua viagem, tente focar somente nos momentos bons e ignore os ruins como este...babaca tem em todo lugar.. infelizmente.......
Z900RS
Avatar do usuário
Bira R34
Dinossauro
Mensagens: 7794
Registrado em: 20 Fev 2008, 00:29
Localização: Brasília

Re: nina em bh

Mensagem por Bira R34 »

Nina, muito legal o relato, mas desculpa aí a sinceridade: Vc estressa demais, se irrita demais, sobe o sangue demais... É nessas horas q voce perde a atenção e se estrepa.

Que bom q vc chegou bem. Depois quero ouvir tudo numa mesa de chopps.
Fazer 250 '08 ---> Bandit N1200 '06 --->Ninja 250 '09 ---> Bandit 1250S '09 ---> Ulysses XB12X '08 ---> Shadow 750 '08 ---> GSX-R 1000 K8 `09 ---> Harley Davidson FXDF ´12

Macumunando coisas caóticas
JAL
Dinossauro
Mensagens: 9699
Registrado em: 05 Nov 2008, 10:02

Re: nina em bh

Mensagem por JAL »

Muiiiiiiiiiiiiiiiiito legal Nina!!!!
Parabéns por tudo!! ;-)
Avatar do usuário
Giuli
Motoqueiro
Mensagens: 3784
Registrado em: 24 Dez 2007, 09:52

Re: nina em bh

Mensagem por Giuli »

nina
parabéns
bom saber que no final tudo deu certo ;-)

mas esse viado é um verdadeiro FDP :grr:
De tudo ficaram três coisas:a certeza de que estamos sempre começando,
a certeza de que é preciso continuar
e a certeza de que seremos interrompidos antes de terminar.(Fernando Sabino)
.
Responder