Transamazônica 2013 - Chegadeira

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samurai
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Re: Transamazônica 2013 - Relato de Viagem parte IV

Mensagem por samurai »

Luiz Almeida escreveu:Dilma de Mini Saia

A produção de cacau de Medicilândia em 2011 foi de 22 467 toneladas enquanto que a de Ilhéus foi de 11 520 toneladas, de acordo com o IBGE. Segundo a SEPLAC (importante órgão ligado diretamente à cultura cacaueira) a produção atual de Medicilândia deve passar da 30 mil toneladas. Medicilândia é, portanto, a Capital Nacional do Cacau!

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Belos textos, Luiz, peguei hoje só para lê-los!

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Luiz Almeida
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Re: Transamazônica 2013 - Relato de Viagem parte IV

Mensagem por Luiz Almeida »

samurai escreveu:
Luiz Almeida escreveu:Dilma de Mini Saia

A produção de cacau de Medicilândia em 2011 foi de 22 467 toneladas enquanto que a de Ilhéus foi de 11 520 toneladas, de acordo com o IBGE. Segundo a SEPLAC (importante órgão ligado diretamente à cultura cacaueira) a produção atual de Medicilândia deve passar da 30 mil toneladas. Medicilândia é, portanto, a Capital Nacional do Cacau!

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Valeu, Samura! Daqui a pouco tem mais.
Luiz Almeida
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Re: Transamazônica 2013 - Relato de Viagem parte IV

Mensagem por Lady J »

...obrigada por compartilhar conosco esta viagem ;-) ...gosto muito do teu texto !!
Luiz Almeida
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Re: Transamazônica 2013 - Relato de Viagem parte IV

Mensagem por Luiz Almeida »

Aline Lander escreveu:...obrigada por compartilhar conosco esta viagem ;-) ...gosto muito do teu texto !!


Obrigado, Aline! Fico feliz em ter leitores como vocês.

Mais um capítulo:

Santarém e Alter do Chão

Rodamos mais 170km sob calor forte e poeira até chegarmos a Rurópolis por volta da duas horas da tarde. A cidade fica no entroncamento da BR 163 Cuiabá/Santarém com a BR 230 Transamazônica. Lugar movimentado com tráfego pesado de caminhões transportando a safra de grãos da Região Centro-Oeste. Enquanto descansávamos, fazendo um lanche e jogando água na cabeça para espantar o calor, Joarez notou que sua moto estava sem a placa. Certamente ela foi perdida na localidade anterior cujo nome é Placas, mas como não havia placa nenhuma – vai ver que se perde muita placa por lá. A solução foi Joarez comparecer à delegacia local para preencher um Boletim de Ocorrência e seguir viagem. Mas como demorou este BO! Perdemos umas duas horas na espera.

Era quase quatro horas. Vamos para Santarém? Bora, concordamos todos. Seriam cerca de 200km ponteados de asfalto, barro e obras na estrada conduzidas pelo exército, muitas obras com muitos desvios.

Margeando a Floresta Nacional do Tapajós rodamos por um pequeno trecho asfaltado e logo começou o trecho de barro, foram 70km com muita poeira levantada pelo caminhões com dupla ou tripla carreta – os famosos treminhões. Ultrapassar ou cruzar um monstro desses era uma operação que exigia muito cuidado.

Muitas vezes tivemos que contornar a estrada por improvisados e mal sinalizados desvios. Também tivemos que pilotar sobre piso molhado recém revolvido por máquinas de terraplanagem. Um cuidado a parte: O pessoal que opera o maquinário do exército, diferentemente dos civis, não costuma prestar muita atenção nos passantes, principalmente nas pequeninas motocicletas.

Os 120km finais para chegar a Santarém era de asfalto. Porém uma reta ladeada por densa floresta, numa monotonia tal que amplificou nosso cansaço. Não havia um posto de gasolina, sequer um boteco para uma paradinha, nada, só o retão cortando a selva. Ainda por cima, com o dia se esvaindo, caiu uma breve chuva e levantou vapor do asfalto e este começou a exalar um nauseante cheiro de óleo diesel.

O odômetro parcial da minha moto marcava mais de 350km rodados e fazia algum tempo que o alerta da reserva tinha sido acionado e nada de Santarém aparecer. Finalmente apareceu um posto na localidade de São José, já perto da cidade. Coube 12,50 litros de gasosa no tanque. Foi o maior estirão com um tanque só que fizemos. Acho que ainda daria para rodar mais de 50km com segurança. O consumo entre Uruará e Santarém foi de 28,89km por litro.

Estávamos um dia adiantados em relação a programação original da viagem.

Entramos em Santarém, que tem cerca de 300 mil habitantes, já noite feita. Ao fim da BR entramos à direita e seguimos pela orla entre a cidade e o rio Tapajós. O primeiro hotel que vimos, apesar da boa aparência, não havia garagem fechada para as motos e sem nem mesmo parar, continuamos o passeio em busca por hospedagem. Rodamos por mais de meia hora com o calor fazendo-nos suar dentro do capacete até que resolvemos voltar ao primeiro hotel que vimos, o hotel Tapajós, onde fomos muito bem recebidos e o preço da diária não era de arrancar o couro do vivente. Como havia vigilância, deixamos as motos estacionadas bem próximas à portaria do hotel. O apartamento triplo era bom e completo.

Por sorte encontramos hotel com vagas em Santarém. A tradicional festa do Çairé, que chega a atrair 100 mil pessoas, havia sido adiada em uma semana. A tradição existe há cerca de 300 anos. Atualmente o Çairé é festejado no mês de setembro e consiste em um ritual religioso que se repete durante o dia, culminando com uma cerimônia noturna com ladainhas e rezas. Depois vem a parte profana da festa, representada pelos shows artísticos, com apresentações de danças típicas e pelo confronto dos botos Tucuxi e Cor-de-Rosa. São cinco dias de muita música, dança e rituais resultantes do entrelaçamento social e cultural entre os colonizadores portugueses e índios da região do Tapajós.

Um saco todo dia tirar a tralha da moto composta por bauleto e sacola amarrada no lugar da garupa com aquela ruma de elásticos para sustentar a bagagem com segurança no sacolejo das estradas para no dia seguinte montar tudo novamente. E lembar que eu havia pensado em levar na bagagem pneus tipo cross para os momentos de lamaçal...

Refeitos do dia na estrada fomos procurar lugar para a refeição do dia. Um taxista que fazia ponto no hotel nos levou a um restaurante especializado em peixes. Se come peixe na Amazônia! Estranhamos os 20 reais cobrados pelo taxista em tão curta distância percorrida. Perguntamos o custo real a um outro taxista que estava estacionado por perto e soubemos que fomos roubados em 8 reais. Nos hidratamos fartamente com cerveja e comemos um ótimo peixe. Ao buscarmos condução para voltar, ora vejam, o mesmo taxista malandro que nos levou passava no local. Entramos no carro e contestamos o valor cobrado na ida. Inventou uma desculpa esfarrapada e, constrangido, não nos cobrou a viagem de volta.

Após o café da manhã, levamos as motocicletas para lavagem geral e troca de óleos e filtros na concessionária Yamaha Tapajós Motocenter. Antes contratamos o Messias, um taxista – o mesmo pecador redimido da noite anterior – para nos apanhar na revenda e nos levar para um dia inteiro em Alter do Chão, cerca de 30km de Santarém, negociado em R$100,00. Fomos muito bem recebidos pelos gerentes e mecânicos da concessionária, fizemos todas recomendações que achávamos necessárias e, antes de Alter do Chão, fomos em busca de alguém que consertasse o capacete do Joarez que desde o começo da viagem não abria a viseira. Infrutífera busca.

Joarez escrevendo:

"A Concessionária da Yamaha de Santarém é diferenciada em termos de atendimento. Muita atenção, gentileza e serviços de qualidade. Providenciaram, inclusive, a substituição da minha placa que perdi numa "pequena" erosão na estrada. Foi mais ou menos assim: Vinha subindo uma grande ladeira e quando chego ao topo cruzo com um veículo e um manto de poeira cobre tudo. Diminui a velocidade rapidamente. Não sei exatamente por onde passei, mas senti um solavanco enorme que serviu de impulso para ficar de pé na moto. Freios traseiros acionados, senti a moto derrapando por alguns instantes e pude finalmente perceber que estava dentro de uma vala de erosão muito grande que me levava pra fora da estrada. Mantive a calma - aí Jesus, ai Jesus... - e visualizei, alguns metros á frente, uma marca de pneus de caminhão que tinha derrubado o beiral da vala. Foi por ali mesmo que escapei do buraco e de entrar mata adentro... Sinistro!! Só percebi a falta da placa em Rurópolis, muitos quilômetros a frente. O pitoresco do acontecido, foi que placa da moto caiu exatamente no Município de Placas-PA. Será que é coincidência ou destino?? rsrsrs"

Alter do Chão é considerado o Caribe do Amazonas, apontada como a mais bela praia fluvial do mundo pelo jornal britânico The Guardian. Quando as águas do rio Tapajós baixam surgem ilhas com belas praias de areia branca banhadas por águas transparentes num tom verde esmeralda. Há diversos barqueiros fazendo a ligação entre o casario do lugar e as ilhas onde ficam as barracas de palha que servem bebidas, peixes e os mais variados petiscos regionais.

Ficar o dia todo bebericando numa barraca de praia fluvial não me parecia ser a melhor opção para quem vive no Ceará, terra cheia de praia maravilhosas. Sugeri aos amigos a opção de passeio de barco que nos era oferecida por um barqueiro do lugar. Havia diversas opções e concordamos em fazer uma passeio completo navegando numa voadeira de alumínio. Marcelo negociou o valor e aceitamos pagar R$300,00 desde que fosse incluído no pacote duas caixas de cerveja e isopor com muito gelo. Também incluímos o nosso taxista no passeio, afinal, deixar o cabra o dia todo a nos esperar não seria legal.

Entramos no pequeno barco. Marcelo na proa, eu o Joarez no meio, Messias atrás e Moisés, o barqueiro na popa comandando um motor de 40hp. Como eu levava minha máquina fotográfica grande, a Nikon D5100, avisei logo que o passeio deveria ser “sem emoção”. Bobagem, minutos depois de sairmos da área da praia – desconfio que por ordem do Marcelo – Moisés acelerou a voadeira que começou a saltitar feito touro de rodeio nas águas do Tapajós. Parecia que estávamos no mar! A água começou a respingar fortemente sobre nós e por sorte Joarez providencialmente levava sacos plásticos grandes para proteger o equipamento. Nunca naveguei em rio tão grande e largo, lembrei-me do nosso Jaguaribe.. o maior rio seco do mundo. Eita Ciará pai d’égua, é água muita!

Navegamos por mais de três horas. Paramos na praia de Ponta de Pedra e nos deliciamos com um peixe assado na brasa chamado charuto e aproveitei para secar a pochete com documentos e o equipamento fotográfico. Contornamos ilhas entramos em igarapés, vimos casas isoladas e igrejas suspensas por palafitas, caminhamos entre imensas árvores, chegando até bem próximo do encontro do Tapajós com o Amazonas.

Joarez escrevendo:

"Esse passeio de barco foi um dos pontos altos na nossa viagem. Muito legal e foi com emoção!! Além de Ponta de Pedra, conhecemos o canal do Rio Jari. Uma espécie de mini pantanal, cheio de pássaros e iguanas. Descemos numa faixa estreita de terra no meio rio, acho que era uma ilha e caminhamos no meio daquele cenário repleto de natureza intocada. O guia pelejou, pelejou, até que encontrou um jacaré - no caso uma jacaretinga - para mostrar que os bichos frequentavam o lugar."

Navegando, tomávamos cerveja e vez por outra era necessário verter o líquido... mesmo todo molhado, numa parada que a voadeira fez bem próximo à terra para o Joarez tentar pescar algum peixe (o cabra levou equipamento de pesca na bagagem!), saí do barco com roupa e tudo para me aliviar da vontade de fazer xixi que já estava na últimas. Mal entrei na água, que era tão profunda que não toquei no fundo, o barqueiro Moisés gritou: - cuidado que aí tem piranha! Putz! Voltei imediatamente para o barco virando-me de bruços mantendo as canelas levantadas para não tocar na água e terminei o que estava fazendo. Curioso que Joares e Moisés tentaram pescar no mesmo lugar e nada beliscou os anzóis...

Joarez escrevendo:

"O Luiz contaminou a água, arre égua!! Estava louco para pescar o almoço, mas foi frustrante. Valeu pela comédia. Nunca vi o Luiz Almeida mais branco e com cara de desespero, quando o guia sentenciou: "Ai tem piranha!!". Pense num cabra que se converteu na mesma hora!! Valha-me Deus!! Eu e o Marcelo quase passamos mal de tanto rir....rsrs "

Ao retornarmos a Alter do Chão, demos uma parada nas praias das ilhas para um relaxante banho naquelas tépidas águas. Retornando à vila, acertamos as contas com o barqueiro, agradecemos o dia e entramos no táxi de volta a Santarém. À noite fomos comer um tacacá, acho que de micro-ondas de tão diferente do tradicional que eu conhecia e apreciava. Marcelo e Joarez, que não conheciam o tacacá, também não gostaram da iguaria tipica servida naquele restaurante metido a chic.

Inté!
Luiz Almeida
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Castelo
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Re: Transamazônica 2013 - Relato de Viagem parte V

Mensagem por Castelo »

Muito boa a escrita, Luiz, cristalina.

Talvez por isso, digo que poderias afrouxar as rédeas.
Não tema detalhar ainda mais alguns pontos, pois está bem enxuto.
Luiz Almeida
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Re: Transamazônica 2013 - Relato de Viagem parte V

Mensagem por Luiz Almeida »

Castelo escreveu:Muito boa a escrita, Luiz, cristalina.

Talvez por isso, digo que poderias afrouxar as rédeas.
Não tema detalhar ainda mais alguns pontos, pois está bem enxuto.


;-) ;-) ;-)
Luiz Almeida
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Augusto Intruder
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Re: Transamazônica 2013 - Relato de Viagem parte V

Mensagem por Augusto Intruder »

Oi Luiz,

Parabéns pelo relato e principalmente pela viagem. Que inveja (no bom sentido). Queria ter sido eu a fazer essa viagem e conhecer melhor o nosso Brasil.
Estou no aguardo dos proximos capítulos.

Abraço
Luiz Almeida
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Re: Transamazônica 2013 - Relato de Viagem parte III

Mensagem por Luiz Almeida »

drsrg escreveu:Luiz,

o que são estas benditas "travas de pneu"?

E o tal macaco que você usava para lubrificar corrente?
Tem foto? Fiquei curioso em como seria, para você poder carregar na moto.

[[]]!


Eis as fotos do Macaquinho:

Imagem

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Inté
Luiz Almeida
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SPEED RACER
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Re: Transamazônica 2013 - Fotos do Macaquinho

Mensagem por SPEED RACER »

Vim correndo achando que seria um macaco animal que vc encontrou na selva rsrsrsrs
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Luiz Almeida
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Re: Transamazônica 2013 - Fotos do Macaquinho

Mensagem por Luiz Almeida »

Poeira, Poeira, Poaca!

Joarez, por conta dos telefonemas da mulher informando que o filhote estava piorando de uma gripe ou, sabe-se lá, pneumonia, estava resolvido a entregar sua moto a uma transportadora e retornar de Santarém mesmo de avião. Fomos à concessionária buscar as motos, que estavam prontinhas, e de lá, com apoio de um funcionário, a um empresário motociclista que poderia ajudar o Joarez no embarque da moto. Com algumas ligações o camarada apresentou um valor altíssimo para o transporte. Joarez continuou na tratativas para retornar e caso não desse certo nos encontraria na estrada.

Na conversa com o empresário, soubemos da tentativa de sequestro de um amigo dele. Os bandidos queriam 25 quilos de ouro. Tentaram fugir no avião da vítima mas o piloto depois de alçar vôo fez manobras que assustaram os cabras e, ao simular pouso de emergência fez os quatro meliantes fugirem para a mata fortemente armados. Parece que um morreu em troca de tiros.

Marcelo e eu voltamos ao hotel para acerto de contas e arrumação de bagagem. Saímos de Santarém rumo a Rurópolis por volta de meio dia e meia. Na estrada paramos para água e café numa mercearia onde almoçavam juntos policiais bem armados e servidores do Ibama. Os policiais nos alertaram sobre os bandidos refugiados na mata e que eles poderiam tentar roubar nossas motos para se evadirem da área. Ficamos ligados.

Joarez escrevendo:

"O chefe da oficina da Yamaha foi mais uma vez muito prestativo e nos levou a um motociclista local, gente fina, dono de um posto de combustível. Como a situação do meu filhote estava ficando mais séria resolvi mesmo voltar dali. Dois fatores me convenceram a prosseguir: o primeiro uma ligação feita à minha esposa que me relatou uma certa melhora do pequeno - nessa altura os "meninos" já tinham pego estrada em direção à Itaituba; Outro fator de incentivo foi o preço que me apresentaram - R$ 3800,00 para transportar a moto. Somando um e outro lá vou eu atrás dos dois com fome de estrada e sem piedade da 660 revisada. Pouco mais de duas horas depois estava junto deles, pouco antes de Rurópolis. Descobri que a Yamaha de Santarém é mesmo internacional. Não é a que moto passou a falar inglês!! Isso mesmo, velocidade e odômetro em milhas dali em diante...rsrsrs"

Logo após entrarmos na parte da estrada com obras, barro, poeira e lama, Joarez nos reencontrou. O alto custo do retorno a partir de Santarém o fez prosseguir junto a nós até a próxima oportunidade. Chegamos a Rurópolis pouco antes das quatro da tarde. Cedo para pernoitar e um pouco tarde para encarar mais de 150km de poeirenta estrada de barro. Mas nos lembramos que naquela região a noite só estava chegando depois das 19:30h, de modo que resolvemos prosseguir rumo a Itaituba.

Durante toda a viagem, no trecho de mais de 3 mil km sem asfalto, enfrentamos buracos, valas, pontes precárias, desníveis, pinguelas, pedras, pedriscos escorregadios, erosões, lamaçais, chão liso como sabão, armadilhas diversas e muitos etcéteras a mais. Porém não tivemos nenhum trecho tão tenso e perigoso quanto o trecho entre Rurópolis e Itaituba. Toda a viagem foi como uma grande trilha, onde levar um tombo fazia parte do processo, porém, naqueles 150km, apesar de toda cautela, senti que corremos risco de vida.

O pesado tráfego de treminhões, com uma ruma de pneus, levantava uma densa poeira branca que permanecia em suspensão por muito tempo, dando a impressão que pilotávamos sob forte cerração. Era um mundo surreal! Para ultrapassar um caminhão era preciso primeiro enxergá-lo no meio do pó. Depois tentar ver se vinha algum veículo no sentido contrário, o que era muito difícil, com o agravante que muitos dos que trafegavam por ali não acendiam os faróis. Muitas vezes esperamos chegar a um alto para de lá ver se vinha caminhão, para só então passar.

Mas não era só isso; também ficávamos com visibilidade zero ao cruzar com os veículos pesados que vinham em sentido contrário levantando nuvens de poeira. A pior situação era cruzar com um comboio de treminhões! Pilotávamos dentro de mundo onde nada existia a não ser o branco da poeira. Só sabíamos que não estávamos flutuando num éter leitoso por conta dos solavancos das motos num solo que não enxergávamos. A gente seguia em frente mantendo uma linha reta, sem saber se havia valas, pedras, carros parados ou pior, um caminhão trafegando à esquerda da sua faixa de estrada que, diga-se, não era nem um pouco delimitada. Caso sofrêssemos uma quedinha qualquer com a moto, certamente seríamos atropelados por diversos caminhões. Sobrevivemos. Foi tenso, muito tenso!

Durante as combinações antes da viagem, depois que soubemos das histórias da dificuldade para fazer ultrapassagens sob poeira, a famigerada “poaca”, eu e Marcelo fizemos um pacto, foi pacto mesmo e não uma simples combinação, de não colocarmos nossas vidas em risco nessas situações – nada de se meter em roleta-russa e fazer o outro ser obrigado a dar notícia ruim à família. Cumprimos o pacto, Joarez também, mesmo tendo decidido viajar na última hora.

Outro complicador era o sol de proa durante todo o trajeto, que incomodava muito depois das cinco horas da tarde. Os capacetes do Joarez e do Marcelo possuíam pala, amenizava a situação, mas o meu, basculante e sem pala, era sol direto na cara por mais de duas horas. Vez por outra, para tirar o pó da viseira eu passava a luva por dentro e por fora, pois mesmo estando suja, ajudava a melhorar muito a visão.

Finalmente, depois de uma jornada de 420km, chegamos à balsa para a travessia do rio Tapajós ao por do sol. Do outro lado do rio via-se as luzes de Itaituba. Na travessia, um camarada da Funai nos indicou um hotel e um grupo de jovens vendedores de moto outro, dizendo-nos que este seria muito bom. No primeiro hotel, perto de uma feira na beira do rio, não havia como deixar as motos em segurança, além das acomodações estarem a três vãos de escada. O segundo hotel, o Amazonas, também simples, mas com apenas um vão de escada e em parte residencial da cidade terminou por ser o escolhido. Escada estreita e apartamento triplo muito pequeno. Ao colocarmos a bagagem no apartamento, concluí que seria muito desconfortável os três juntos num espaço tão apertado e resolvi me mudar para apartamento individual. Foi o melhor para todos.

Aliviados do peso da poeira no corpo, vestindo bermudas e chinelos, a pé, fomos procurar um lugar para a refeição do dia. No hotel indicaram um lugar que de longe já desistimos por conta de música barulhenta. Caminhamos em direção a uma churrascaria que vimos quando nos dirigimos ao hotel. Lugar bacana, com ambiente interno e externo. Escolhemos uma mesa do lado externo e avisamos que faríamos a refeição, nas mesas de dentro, depois de umas cervas. Ah, as cervas foram proporcionais ao pó da estrada, muitas!

Tudo começou quando bebericávamos nossas cervejas revivendo o dia de viagem quando uma dupla começou a se preparar para tocar música ao vivo. Imaginei que obviamente seria a breguice da música local em volume de estourar tímpanos. Ledo e grato engano! Os caras, Sildomar e Daniel, tocavam direitinho o repertório do Raul Seixas, Fagner, Zé Ramalho, Almir Sater, Bechior e outros bons da mpb. Quando souberam que éramos cearenses e estávamos em viagem de moto aí que capricharam na cantoria. Pois é, foi uma cervejada e tanto com direito a diversas saideiras. Jantamos, sim, mas nem me lembro direito o quê.

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Luiz Almeida
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Biagioni
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Re: Transamazônica 2013 - Relato da Viagem - Parte VI

Mensagem por Biagioni »

Legal!

poderia tambem anexar uma foto do dia a cada historia hein Luiz!!
Desde 23/06/2006
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KSA
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Re: Transamazônica 2013 - Relato da Viagem - Parte VI

Mensagem por KSA »

Muito massa! ;-) ;-) ;-)

Ex.....: YBR 125 ED (*)2002 - (†)2004
Ex.....: XTZ 125.....(*)2004 - (†)2005
Ex.....: XT 225.......(*)2005 - (†)2006
Ex.....: Fazer 250...(*) 2006 - (†)2015
Ex.....: CB500X ABS..(*) 2015 - (†)2018


PCX 150 (*) 2019
KSA escreveu: Relação Transponder (aquela que é tão barulhenta que avisa a aproximação)
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gusmano
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Re: Transamazônica 2013 - Relato da Viagem - Parte VI

Mensagem por gusmano »

puts! que inveja boa!! Parabéns!!

Um dia pretendo chegar até o oiapoque e completar o " oiapoque a chui" , este segundo já feito!

abs
A pedido daquele que tudo vê, retirado o banner ! :-P

Intruder 125 - 01/09 -> 01/10.
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Neo - 16/? -> 21/?.
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gui dantas
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Re: Transamazônica 2013 - Relato da Viagem - Parte VI

Mensagem por gui dantas »

Luiz! Parabéns!!! Show de bola :wsh:
Luiz Almeida
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Re: Transamazônica 2013 - Relato da Viagem - Parte VI

Mensagem por Luiz Almeida »

Biagioni escreveu:Legal!

poderia tambem anexar uma foto do dia a cada historia hein Luiz!!


Boa ideia!

Eis uma que simboliza a dificuldade descrita no texto acima:

Imagem

Valeu Amigos!
Luiz Almeida
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Re: Transamazônica 2013 - Relato da Viagem - Parte VI

Mensagem por Joaquim »

Essa aí me lembrou da Belém-Brasília no meio de uma queimada.
Eram quilômetros de fumaça que não dava para ver nada.
jsamuel
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Re: Transamazônica 2013 - Relato da Viagem - Parte VI

Mensagem por jsamuel »

Hoje vi o Luiz Almeida passando em cima da gema de ovo dele, próximo ao IBGE em frente ao Shop Benfica. kkkkkkk
R 1200 GS Adventure Rallye :-?
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Luiz Almeida
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Re: Transamazônica 2013 - Relato da Viagem - Parte VI

Mensagem por Luiz Almeida »

jsamuel escreveu:Hoje vi o Luiz Almeida passando em cima da gema de ovo dele, próximo ao IBGE em frente ao Shop Benfica. kkkkkkk


Estava indo ao Lourinho dos Aros, assuntar uma parada com o Marcelo, que vendeu a GS 1200 dele.

Por que não se manifestou??????
Luiz Almeida
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Re: Transamazônica 2013 - Relato da Viagem - Parte VII

Mensagem por Luiz Almeida »

Zona de garimpo

Marcelo desistiu da compra de ouro que pretendia fazer em Itaituba, completamos os tanques das motocicletas (27,64km/l) e fomos para a estrada, que Jacareacanga estava longe, 410km de estrada de chão. Entramos no Parque Nacional da Amazônia (Base Igarapé Tracoá) depois de cerca de 50km de estrada. Poeira, praticamente só a levantada pelas nossas motos. Foram cerca de 150km dentro do Parque, estrada estreita, sem presença humana, ladeada pela selva intocada, cujas árvores as vezes se tocavam no alto das copas formando túneis verdes. Vez por outra uma velha árvore caída forçava desvio na estrada. Araras, macacos e borboletas de um azul fosforescente eram fáceis de ver. Foi um belo momento da viagem. No entanto, seria assustador dar um prego sozinho no meio daquela selva.

A propósito, as distâncias obtidas via Google Maps e Guia 4 rodas no planejamento da viagem muitas vezes não batiam com a realidade, pelo menos na Região Amazônica. Por exemplo; o Guia 4 Rodas informa que a distância entre Itaituba e Jacareacanga é de 381km, quando no odômetro parcial da minha moto, zerado em Itaituba, mostrou exatos 410km.

O Parque Nacional da Amazônia foi criado em 1974. Tem área de 994 mil hectares e seu perímetro é de 710km. Ao todo, são 11 Parques Nacionais dentro da Amazônia.

Numa parada para fotos, descanso e admiração do lugar, meu capacete teimou em não abrir a parte basculante. Eu o havia lavado externamente debaixo do chuveiro na noite anterior... tentei diversas vezes e o dispositivo de abertura manteve-se travado. Mas que chato, ter que tirar os óculos e quase arrancar as orelhas para tirar e colocar a droga do capacete na cabeça! Pensei em trocá-lo por outro na primeira oportunidade. Era um bom Nolan, porém com mais de três anos de uso e eu já tinha um semelhante novinho em folha...

Saímos do Parque e, por volta da uma da tarde, chegamos a uma localidade denominada Km180, que consiste num ponto de apoio ao garimpo, com restaurante, mercearia, pista de pouso e venda avulsa de combustível. Amigo Garimpeiro, é o nome do estabelecimento. A refeição é tipo auto serviço, mas há uma placa que diz: PF 15 reais – se repetir é 20. Almoçamos entre os garimpeiros e fizemos perguntas sobre o processo de obtenção do ouro. As respostas eram fugidias. Apenas um deles conversou mais abertamente conosco. Ao lado do balcão do bar, numa parede de madeira, há diversos adesivos de motociclistas que ali passaram. Os nossos também ficaram lá.

Apesar do sonho dourado de Serra Pelada não mais existir, a atividade garimpeira ainda é muito forte na região. Não sei se legalizada ou não – essas coisas a gente não pergunta... O Processo atual é mecanizado, utiliza escavadeiras, bombas de água e esteiras de separação. O garimpeiro moderno não usa mais a antiga bateia e recebe em torno de 17% do que produz. Não entendi como se separa a produção individual, mas o restante fica com o dono do garimpo e maquinário. Marcelo sondou, mas ainda não comprou o ouro que desejava. Pequenos aviões decolavam e pousavam o tempo todo e a hora de vôo custa R$1200,00. Uma van chegou com algumas mulheres usando batom e roupas de cores fortes.

Como não há postos de combustível entre Itaituba e Jacareacanga, nos garantimos colocando três litros de gasolina em cada moto. Gasolina a R$4,50 o litro.

Mais à frente paramos para beber água em um outro ponto de apoio ao garimpo, bem menor que o Km 180. Era mais para apoio à pista de pouso que havia ao lado. Enquanto bebia e refrescava o corpo com a água gelada, conversei com o Genival Ferreira, um garimpeiro expansivo que contava conhecer quase todo o Brasil e já garimpado em todos os garimpos. Simpático e conversador, Genival só mudou o tom alegre quando perguntei se poderia visitar e fotografar algum garimpo por perto. - Com esse teu jeitão de pulíça vai ser meio complicado... foi a resposta dele. Mesmo assim ele indicou um garimpo a 20km dali, onde eu poderia tentar obter permissão para fotografar. Passamos os 20km e não vimos a tal entrada.

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Luiz Almeida
Fortaleza-Ce
R 1200 GS
DL 650 XT V-Strom
XTZ 250 Ténéré

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Bons tempos aqueles em que só andava de moto quem realmente gostava de motocicleta.
jsamuel
Dinossauro
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Re: Transamazônica 2013 - Relato da Viagem - Parte VII

Mensagem por jsamuel »

O cara já vendeu a moto? Putz...
R 1200 GS Adventure Rallye :-?
No Limit Brasil MG (SS Iguatu - Ceará)
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