Acho que a grande questão é a educação. Principalmente em grandes centros urbanos prevalece o espírito de competição, de individualismo, de falta de sociabilidade e senso de convívio social. Esse paradigma gera nas pessoas um sentimento de inferioridade e despotismo individualista, de se achar o correto em todas as situações, de se achar "o dono da verdade".
A maioria das pessoas que vivem nesse ambiente se sente explorado pelo patrão, pelo fornecedor, pelo cliente, pelo banco, pelo governo, pelos políticos e demais espécies de bandidos, pelos filhos, pela espôsa, pelo marido, pela ex-exposa, pelo ex-marido, em fim, sente-se explorado e espoliado por tudo e por todos. Fica frustrado e recalcado, prenhe de incontida revolta, etc.
Daí parte para a exacerbação da manifestação de suas neuras, frustrações e recalques, quer seja através do excesso de bebida, de drogas, de tabaco, agressividade "à flor da pele". Um dos instrumentos de pseudo-catarse dessas patologias é justamente o seu veículo, quer seja uma motocicleta, um automóvel, um ônibus, um caminhão, um patinete, um velocípede... Tende a se comportar de forma egoísta e egocêntrica, acreditando que ao menos no trânsito, o mundo deve atender suas reivindicações, aplacar suas angústias e frustrações, seu stress.
Quando conduzindo veículo automotor, sente-se numa espécie de castelo, de território onde ele é senhor totalitário e tudo fica ao seu comando, subjugado ao seu bel prazer. Usa o veículo como instrumento de agressão contra aqueles a quem ele culpa por sua infelicidade e infortúnio, pela opressão que sente, pela sua sensação de ser um cativo, um escravo, um miserável e coitado.
Ao menos ali, no trânsito, ele quer ser o primeiro, o líder, o "alfa", quer ficar na "pole-position" nos sinais de trânsito fechados e ser o primeiro a arrancar na frente, duelar com todos os seus recursos para que ninguém o ultrapasse, pois isso, para ele, tem a conotação de "ser passado para trás", de ser enganado, de ser espoliado, de ser superado.
Então fecha cruzamentos, fala ao celular enquanto dirige (mesmo sabendo que, antes de ser proibido pelo código de trânsito, isso é perigoso, mas ele acredita piamente que ele pode infringir essa regra, que ele tem real necessidade de falar ao celular naquele momento, que ele, dentro de seu carro, seu território, pode tudo), fecha a passagem de outros veículos atrás ou ao lado do seu, buzina tresloucada e histericamente, chinga, grita, muda de faixa sem se importar com os demais veículos na via (afinal as ruas e estradas são "sua propriedade") e quer que os outros que se submetam aos seus caprichos, suas imposições.
É incapaz de olhar uma motocicleta passando por ele enquanto o engarrafamento o retém. Fica revoltado, frustrado e recalcado, sente mais uma vez espoliado vendo aquele motoqueiro (latu-sensu, por favor, sem questionamentos semânticos quanto às diferenças entre motoqueiros e motociclistas) ultrapassando-o e que vai chegar primeiro que ele ao seu destino (mesmo que debaixo de um calor infernal ou de uma chuva torrencial).
Os motoqueiros, por sua vez, um pouco menos frustrados e menos acometidos das mazelas e opressões da sociedade, também se julgam senhores, guerreiros, ases da pilotagem e que todo o trânsito à sua frente deve ter aquele espaço que ele chama de "corredor" (nome bem sugestivo) para ele passar com a sua moto, seu bólido ágil e veloz. Sente-se um ser especial por deixar para trás, preso no engarrafamento, os motoristas dos "quadrúpedes", crê piamente que esta vantagem lhe confere uma aura especial, uma distinção.
Penso que seria muito mais fácil e recompensante, se pudéssemos todos guiar no trânsito com segurança, sem estar sob o efeito de neuras, recalques, frustrações, agressividades, revanchismos e outros sentimentos negativos que só fazem aumentar o stress, os níveis de adrenalina na corrente saguínea ( adrenalina é, cientificamente comprovado, um verdadeiro veneno para os vasos sanguíneos, sistema cárdio-circulatório, sistema nervoso, digestivo, imunológico, em fim, para todo o corpo humano, já que a adrenalina é um "recurso extremo" que a evolução dotou o ser humano com objetivo de auto-preservação) e tráz mais recalques.
Aliás, essa ervinha que comprei tá show de bola. Alguém tá servido aí?
