CB 450 DX Luxury Sport - a saga.
Enviado: 23 Mar 2016, 13:18
(Atenção, texto com menção a Deus. Pitizentos podem sofrer efeitos colaterais)
Há tempos tenho um Dodge Polara 1980 que herdei do meu avô. Amo esse carro demais, mas infelizmente não tenho tempo, nem disposição, nem garagem e nem recursos para restaurá-lo. Poderia reformá-lo (e não restaurá-lo), mas não é que desejaria para o carro, não ia gostar de ir aos encontros de carros antigos com coisas por fazer. Ou é 8 ou é 80.

A decisão, meia controversa, meio melancólica, foi vender o carro. Não é fácil vender, sendo que precisa de cuidado. Propostas por um terço do preço que eu pedia eram corriqueiras, mesmo tendo noção que o preço estava dentro do mercado. Muito desgaste em ficar mandando foto, analisando proposta que até eu, que gosto disso, cansei. Propostas absurdas, outras tranqueiras na troca, desde pagar parcelado no fio do bigode, acordeon e até mini pônei com charrete! (se foi algum “amigo”, quero saber!!!)

Sempre dou uma olhada nos classificados para ver o que tem de bacana, acompanhar preços e tal. Sempre tive vontade de ter uma moto antiga, clássica, para dar umas passeadas por ai. Olhava RD135, olhava CG125, olhava CBX750 (ainda olho, mesmo que já tive uma) e olhava as CB450, mas só me interessam as de 90 pra cima.
Sempre que achava uma dessas bonita e num preço parecido, oferecia o Polara na troca. Foram alguns não, faz parte. Achei uma CB 450 91 DX, Luxury Edition, bem bonita, em Chapecó (480km de Blumenau) e o proprietário aceitava o Dodge. Pediu uma volta grande, não estava disposto a dar tanto. Praticamente 1500,00 a mais do que eu achava justo, mesmo que fosse na troca. Olhava o Dodge na garagem, ocupando espaço e se desfazendo, apertei o botão. Aquele sabe?
No final das contas, os documentos da moto estavam pagos, do Dodge não, o que me fez considerar que paguei R$ 1000,00 a mais do que deveria, mas pelo menos resolvia o meu problema com garagem e manutenção, ciente de que a moto também precisa de cuidado, mas é tudo beeeeem mais barato. A despesa da viagem não considerei, pois aventura não tem preço.
Peguei um dinheiro emprestado, trocamos fotos e vídeos e me parti à Chapecó.
Saí as 4h30 da manhã, olhando o carro, lamentando, pensando no meu avô e toda aquela coisa triste de filme. Foi mesmo. Apreensivo pela viagem de ida, afinal, fui só com o carro e a coragem (sem estepe, sem ferramentas, sem nada), mas tudo bem, confiava no carro, quase nunca deu problema. Isso só me fez ficar ainda mais apreensivo. Como vou voltar numa moto que não conheço debaixo de 480km de chuva? Ansiedade pegando a mil. Nem consegui comer durante a manhã toda, só pensando em chegar. BR 470 e BR 282, rodovias cheias de caminhões, pardais e buracos.
Subindo a serra catarinense, naquela chuva toda, me bateu um friozão, me obriguei a vestir a jaqueta de motociclismo, mas pilotando um automóvel. Nos postos de gasolina, pareci ou doido.
As 11h30 da manhã cheguei em Chapecó. Peguei 480km de chuva. O carro foi 100%, não aconteceu absolutamente nada, tal como esperado.
A moto já estava lá me esperando, linda e bela, mas fomos olhar o Dodge primeiro. Analisa daqui, dali, e depois fomos ver a moto, analisa daqui... Capacete personalizado na cor da moto, chaves reservas, manual, óleo trocado, tudo certo.
A chuva parou. Impressionante. Dei uma voltinha na moto e, de fato, era o que foi anunciado. O carro também estava conforme o descrito. Fechamos negócio.
Precisávamos ir ao cartório oficializar os documentos, mas só abria às 13h30. Ele foi comer um pastel e eu com pressa de ir pra casa, nervoso com a volta, com a distância, com o cansaço e com a chuva, não consegui comer nada.
Enquanto corríamos para resolver os papéis, parou um L200 do lado elogiando o carro, pediu o preço, o "novo dono" gritou um valor bem maior do que vendi pra ele... seguiram conversando! Quase desfiz o negócio, pra EU vender pra cara
Não deu negócio, ainda bem kkkkk.
Papelada pronta, enchi o tanque, os pneus e saí de Chapecó às 15h, sem chuva. Pensei comigo: “vou tocar até onde der e parar num hotel quando a chuva apertar”.
Andei 55km e vi que o marcador de combustível não estava funcionando. Tive que parar no posto para ver qual a média que fazia e ver quanto já tinha consumido e tal. Quando paro na bomba, pneu dianteiro murcho....
Graças a Deus, vi o pneu murcho com ela parada e não rodando, e estava num posto com borracharia. Trocamos a câmera, mas ali perdi 1h de viagem, praticamente.

Foto numa das paradas no meio da viagem
Segui viagem, mas o pneu não assentou no aro. Estava quicando. Voltei. Ele reposicionou o pneu, esvaziou e encheu algumas vezes. Perdi mais 15 minutos.
E toquei viagem. Moto gostosa de rodar, estava feliz, mas com saudade do Dodge, carro que esteve intensamente presente em minha vida há 35 anos.
Rodei mais uns 100km, curtindo a moto, andando devagar, dando umas aceleradas para pegar o sol ainda, afinal, já eram quase 18h.
Nada de chuva. Um vazamento de óleo aqui e ali, buzina não funciona, mas de resto tudo certo. Aliás, o óleo vazava e, com a velocidade, pingava entre o tênis e a calça, bem onde não tinha proteção.....
Subindo a serra, já noite, vejo que não tenho farol. Ué, cadê a luz? Apontava pra lua. Decepcionado comigo mesmo de não ter visto isso antes, dei uma praguejada. E eu, com conhecimento quase 0 de como fazer a coisas, fui na mão mesmo e forcei o farol para baixo. Pronto, problema resolvido.
Parcialmente resolvido, pois a lâmpada é muito fraquinha, ter farol e não ter era quase a mesma coisa. Eis que Deus me presenteia com um luar maravilhoso! Nem precisei mais de farol, enxergava tudo mesmo sem luz. Lembrei de Êxodo 13.21: “Durante o dia o SENHOR ia adiante deles, numa coluna de nuvem, para guiá-los no caminho e, de noite, numa coluna de fogo, para iluminá-los, e assim podiam caminhar de dia e durante a noite”.
Faltando 350km para chegar em Blumenau, a moto começa a falhar. Motor trancando, pulando, embolando, sem força. E agora? Não entendo nada. Lembrei de que motos carburadas sofrem na altura, e estava na serra (mesmo achando que a serra catarinense não tem nada a ver com a altura dos alpes e tal, mas eu queria acreditar nisso. Aliás, era a única opção). Bom, quando descer, melhora. Não conseguia passar de 50km/h. Liguei o pisca alerta e continuei rodando. Rodovia vazia, estava seguro, teoricamente.
Parei num posto para ver o consumo nessa bagunça toda, e perguntei quantos km faltavam para descer a serra. – “90km”. Bom, vamos andar esses 90km assim mesmo.
Ledo engano. Desci um pouco e a moto cada vez pior. Parei no posto, braço exausto de tanto tranco, corpo idem, mente idem. Um cara olhou e disse que era a boia que havia furado. – “Pode tocar assim mesmo, não dá nada”.
Fui. Moto boa. Estava rodando, mas durou só 2km e começou a falhar de novo. Ué.
Medo. NINGUÉM na rua, eu isolado no meio do nada, escuro (mas com um luar bonito!), sem carros passando. Só pensava: Se eu ficar por aqui tenho que dormir no acostamento mesmo....
Pode ficar pior? Pode.... Neblina.
Faltando ainda 150km para chegar em Blumenau, isso já pra mais de 22h, parei no posto de novo, outro cara olhou e viu que o cabo que liga na vela estava saindo faísca por cima. Só botar uma fita isolante que resolve. Falei que era mesmo, pois fui mexer ali durante a viagem, pensando ser isso, e tomei um choque.
Quem disse que temos fita isolante às 10 da noite? Botamos fita adesiva mesmo, resolveu em partes. Vai no outro posto que tem. Fui. Moto igual cabrito. Devia ter aceitado o mini-pônei com a charrete, era menos cansaço.
No outro posto nada de fita, e no outro nada também. Cansado de descer da moto, tirar capacete, balaclava, luvas...
Andei. Faltavam 100km. Parei num posto da Polícia Rodoviária Federal, pedi fita isolante. Ela tinha, aleluia!
Tirei a fita plástica, botei fita isolante, agradeci e bora.
Só que não melhorou muito não. A moto, em giro normal, falhava. Em giro alto, ia. Lá fui eu, rodando em quinta marcha e giro lá em cima (são 6 marchas). Comecei a descer a outra serra. Um loco descendo a serra, atrás de caminhões (agora já tinha movimento nessa área de SC) e com o giro lá em cima, moto pipocando.
Faltavam 30km. Não aguentava mais. Muito cansado. Arrependimento. Frio. Vontade de chorar, medo. Já estava gritando e cantando para afastar o sono e a moleza. Eu, que não sei nenhuma música de cor, e sempre pensando na Gaby, que estava a par de tudo pelo Whatsapp (onde pegava) e Miguelzinho, acabei lembrando de umas das únicas músicas que sei de cor – “a porta do ônibus abre e fecha, abre e fecha, abre e fecha, peeeeela cidade”, by Peppa. E ficava pensando no Miguel enquanto ficava aos trancos em cima da moto. Gaby já tinha falado pra família não desligar o celular pois, de repente, precisaria de ajuda. Todos apreensivos.
Quando passo por um trevo em Timbó, dois caras em duas motos olham para mim no sentido contrário, na rua lateral. Ué, 23h40, andando de moto passeando? Olhei para trás e vi uma moto. Aí lascou.
Bom, como a CB só andava em giro alto, bora girar. Passei o caminhão que ia na minha frente (ele sabia os pardais e eu tinha uma luz melhor que a da minha moto pra ser guiado, por isso andei dezenas de quilômetros atrás dele) e toquei como um cachorro louco, olhando pra frente e para trás ao mesmo tempo. Moto falhando, pipocando, trancando, meio sem luz, mas eu de punho colado, azar. Era trecho conhecido, sabia onde tinha buraco e onde não tinha. Não vi mais a moto.
Cheguei em casa às 00h20. Agradeci a Deus pela viagem, pois mesmo com tanto imprevisto, senti a presença d´Ele comigo. Não peguei chuva, nenhuma gota sequer. Resolvi todos os problemas. Cheguei em casa bem, muito cansado, muito feliz e triste ao mesmo tempo afinal... o espaço do Dodge na garagem estava vazio. Ele se foi, depois de tanto tempo, tanta discussão na família, tantas decisões, tantos planos, mas tudo tem um fim.
Olho para a CB na garagem, não há memórias, não há lembranças de pessoas, não tem história (pelo menos comigo). Que bom! Vou precisar construir tudo isso!
Foram 1012km rodados, entre idas e vindas, mais as voltas na cidade.
Vou levar a CB na revisão e consertar os probleminhas. E bora rodar! (e dar uma olhada nos classificados, para ver se não tem alguém disposto a trocar um Dodge numa CB450!)
Ab, Gustavo Allende
Há tempos tenho um Dodge Polara 1980 que herdei do meu avô. Amo esse carro demais, mas infelizmente não tenho tempo, nem disposição, nem garagem e nem recursos para restaurá-lo. Poderia reformá-lo (e não restaurá-lo), mas não é que desejaria para o carro, não ia gostar de ir aos encontros de carros antigos com coisas por fazer. Ou é 8 ou é 80.

A decisão, meia controversa, meio melancólica, foi vender o carro. Não é fácil vender, sendo que precisa de cuidado. Propostas por um terço do preço que eu pedia eram corriqueiras, mesmo tendo noção que o preço estava dentro do mercado. Muito desgaste em ficar mandando foto, analisando proposta que até eu, que gosto disso, cansei. Propostas absurdas, outras tranqueiras na troca, desde pagar parcelado no fio do bigode, acordeon e até mini pônei com charrete! (se foi algum “amigo”, quero saber!!!)

Sempre dou uma olhada nos classificados para ver o que tem de bacana, acompanhar preços e tal. Sempre tive vontade de ter uma moto antiga, clássica, para dar umas passeadas por ai. Olhava RD135, olhava CG125, olhava CBX750 (ainda olho, mesmo que já tive uma) e olhava as CB450, mas só me interessam as de 90 pra cima.
Sempre que achava uma dessas bonita e num preço parecido, oferecia o Polara na troca. Foram alguns não, faz parte. Achei uma CB 450 91 DX, Luxury Edition, bem bonita, em Chapecó (480km de Blumenau) e o proprietário aceitava o Dodge. Pediu uma volta grande, não estava disposto a dar tanto. Praticamente 1500,00 a mais do que eu achava justo, mesmo que fosse na troca. Olhava o Dodge na garagem, ocupando espaço e se desfazendo, apertei o botão. Aquele sabe?
No final das contas, os documentos da moto estavam pagos, do Dodge não, o que me fez considerar que paguei R$ 1000,00 a mais do que deveria, mas pelo menos resolvia o meu problema com garagem e manutenção, ciente de que a moto também precisa de cuidado, mas é tudo beeeeem mais barato. A despesa da viagem não considerei, pois aventura não tem preço.
Peguei um dinheiro emprestado, trocamos fotos e vídeos e me parti à Chapecó.
Saí as 4h30 da manhã, olhando o carro, lamentando, pensando no meu avô e toda aquela coisa triste de filme. Foi mesmo. Apreensivo pela viagem de ida, afinal, fui só com o carro e a coragem (sem estepe, sem ferramentas, sem nada), mas tudo bem, confiava no carro, quase nunca deu problema. Isso só me fez ficar ainda mais apreensivo. Como vou voltar numa moto que não conheço debaixo de 480km de chuva? Ansiedade pegando a mil. Nem consegui comer durante a manhã toda, só pensando em chegar. BR 470 e BR 282, rodovias cheias de caminhões, pardais e buracos.
Subindo a serra catarinense, naquela chuva toda, me bateu um friozão, me obriguei a vestir a jaqueta de motociclismo, mas pilotando um automóvel. Nos postos de gasolina, pareci ou doido.
As 11h30 da manhã cheguei em Chapecó. Peguei 480km de chuva. O carro foi 100%, não aconteceu absolutamente nada, tal como esperado.
A moto já estava lá me esperando, linda e bela, mas fomos olhar o Dodge primeiro. Analisa daqui, dali, e depois fomos ver a moto, analisa daqui... Capacete personalizado na cor da moto, chaves reservas, manual, óleo trocado, tudo certo.
A chuva parou. Impressionante. Dei uma voltinha na moto e, de fato, era o que foi anunciado. O carro também estava conforme o descrito. Fechamos negócio.
Precisávamos ir ao cartório oficializar os documentos, mas só abria às 13h30. Ele foi comer um pastel e eu com pressa de ir pra casa, nervoso com a volta, com a distância, com o cansaço e com a chuva, não consegui comer nada.
Enquanto corríamos para resolver os papéis, parou um L200 do lado elogiando o carro, pediu o preço, o "novo dono" gritou um valor bem maior do que vendi pra ele... seguiram conversando! Quase desfiz o negócio, pra EU vender pra cara
Papelada pronta, enchi o tanque, os pneus e saí de Chapecó às 15h, sem chuva. Pensei comigo: “vou tocar até onde der e parar num hotel quando a chuva apertar”.
Andei 55km e vi que o marcador de combustível não estava funcionando. Tive que parar no posto para ver qual a média que fazia e ver quanto já tinha consumido e tal. Quando paro na bomba, pneu dianteiro murcho....
Graças a Deus, vi o pneu murcho com ela parada e não rodando, e estava num posto com borracharia. Trocamos a câmera, mas ali perdi 1h de viagem, praticamente.
Foto numa das paradas no meio da viagem
Segui viagem, mas o pneu não assentou no aro. Estava quicando. Voltei. Ele reposicionou o pneu, esvaziou e encheu algumas vezes. Perdi mais 15 minutos.
E toquei viagem. Moto gostosa de rodar, estava feliz, mas com saudade do Dodge, carro que esteve intensamente presente em minha vida há 35 anos.
Rodei mais uns 100km, curtindo a moto, andando devagar, dando umas aceleradas para pegar o sol ainda, afinal, já eram quase 18h.
Nada de chuva. Um vazamento de óleo aqui e ali, buzina não funciona, mas de resto tudo certo. Aliás, o óleo vazava e, com a velocidade, pingava entre o tênis e a calça, bem onde não tinha proteção.....
Subindo a serra, já noite, vejo que não tenho farol. Ué, cadê a luz? Apontava pra lua. Decepcionado comigo mesmo de não ter visto isso antes, dei uma praguejada. E eu, com conhecimento quase 0 de como fazer a coisas, fui na mão mesmo e forcei o farol para baixo. Pronto, problema resolvido.
Parcialmente resolvido, pois a lâmpada é muito fraquinha, ter farol e não ter era quase a mesma coisa. Eis que Deus me presenteia com um luar maravilhoso! Nem precisei mais de farol, enxergava tudo mesmo sem luz. Lembrei de Êxodo 13.21: “Durante o dia o SENHOR ia adiante deles, numa coluna de nuvem, para guiá-los no caminho e, de noite, numa coluna de fogo, para iluminá-los, e assim podiam caminhar de dia e durante a noite”.
Faltando 350km para chegar em Blumenau, a moto começa a falhar. Motor trancando, pulando, embolando, sem força. E agora? Não entendo nada. Lembrei de que motos carburadas sofrem na altura, e estava na serra (mesmo achando que a serra catarinense não tem nada a ver com a altura dos alpes e tal, mas eu queria acreditar nisso. Aliás, era a única opção). Bom, quando descer, melhora. Não conseguia passar de 50km/h. Liguei o pisca alerta e continuei rodando. Rodovia vazia, estava seguro, teoricamente.
Parei num posto para ver o consumo nessa bagunça toda, e perguntei quantos km faltavam para descer a serra. – “90km”. Bom, vamos andar esses 90km assim mesmo.
Ledo engano. Desci um pouco e a moto cada vez pior. Parei no posto, braço exausto de tanto tranco, corpo idem, mente idem. Um cara olhou e disse que era a boia que havia furado. – “Pode tocar assim mesmo, não dá nada”.
Fui. Moto boa. Estava rodando, mas durou só 2km e começou a falhar de novo. Ué.
Medo. NINGUÉM na rua, eu isolado no meio do nada, escuro (mas com um luar bonito!), sem carros passando. Só pensava: Se eu ficar por aqui tenho que dormir no acostamento mesmo....
Pode ficar pior? Pode.... Neblina.
Faltando ainda 150km para chegar em Blumenau, isso já pra mais de 22h, parei no posto de novo, outro cara olhou e viu que o cabo que liga na vela estava saindo faísca por cima. Só botar uma fita isolante que resolve. Falei que era mesmo, pois fui mexer ali durante a viagem, pensando ser isso, e tomei um choque.
Quem disse que temos fita isolante às 10 da noite? Botamos fita adesiva mesmo, resolveu em partes. Vai no outro posto que tem. Fui. Moto igual cabrito. Devia ter aceitado o mini-pônei com a charrete, era menos cansaço.
No outro posto nada de fita, e no outro nada também. Cansado de descer da moto, tirar capacete, balaclava, luvas...
Andei. Faltavam 100km. Parei num posto da Polícia Rodoviária Federal, pedi fita isolante. Ela tinha, aleluia!
Tirei a fita plástica, botei fita isolante, agradeci e bora.
Só que não melhorou muito não. A moto, em giro normal, falhava. Em giro alto, ia. Lá fui eu, rodando em quinta marcha e giro lá em cima (são 6 marchas). Comecei a descer a outra serra. Um loco descendo a serra, atrás de caminhões (agora já tinha movimento nessa área de SC) e com o giro lá em cima, moto pipocando.
Faltavam 30km. Não aguentava mais. Muito cansado. Arrependimento. Frio. Vontade de chorar, medo. Já estava gritando e cantando para afastar o sono e a moleza. Eu, que não sei nenhuma música de cor, e sempre pensando na Gaby, que estava a par de tudo pelo Whatsapp (onde pegava) e Miguelzinho, acabei lembrando de umas das únicas músicas que sei de cor – “a porta do ônibus abre e fecha, abre e fecha, abre e fecha, peeeeela cidade”, by Peppa. E ficava pensando no Miguel enquanto ficava aos trancos em cima da moto. Gaby já tinha falado pra família não desligar o celular pois, de repente, precisaria de ajuda. Todos apreensivos.
Quando passo por um trevo em Timbó, dois caras em duas motos olham para mim no sentido contrário, na rua lateral. Ué, 23h40, andando de moto passeando? Olhei para trás e vi uma moto. Aí lascou.
Bom, como a CB só andava em giro alto, bora girar. Passei o caminhão que ia na minha frente (ele sabia os pardais e eu tinha uma luz melhor que a da minha moto pra ser guiado, por isso andei dezenas de quilômetros atrás dele) e toquei como um cachorro louco, olhando pra frente e para trás ao mesmo tempo. Moto falhando, pipocando, trancando, meio sem luz, mas eu de punho colado, azar. Era trecho conhecido, sabia onde tinha buraco e onde não tinha. Não vi mais a moto.
Cheguei em casa às 00h20. Agradeci a Deus pela viagem, pois mesmo com tanto imprevisto, senti a presença d´Ele comigo. Não peguei chuva, nenhuma gota sequer. Resolvi todos os problemas. Cheguei em casa bem, muito cansado, muito feliz e triste ao mesmo tempo afinal... o espaço do Dodge na garagem estava vazio. Ele se foi, depois de tanto tempo, tanta discussão na família, tantas decisões, tantos planos, mas tudo tem um fim.
Olho para a CB na garagem, não há memórias, não há lembranças de pessoas, não tem história (pelo menos comigo). Que bom! Vou precisar construir tudo isso!
Foram 1012km rodados, entre idas e vindas, mais as voltas na cidade.
Vou levar a CB na revisão e consertar os probleminhas. E bora rodar! (e dar uma olhada nos classificados, para ver se não tem alguém disposto a trocar um Dodge numa CB450!)
Ab, Gustavo Allende
