nina em bh - relato da volta na pág. 17
Enviado: 14 Jan 2010, 14:50
aí, não que eu tenha grandes coisas a contar que a maioria de vcs já não tenha vivido ou experimentado.
mas é legal partilhar com vcs, pra mim é um aprendizado perene e, quem sabe, serve de ajuda tb pra alguém. se ficar chato cês avisam, que eu paro.
vi que ia sobrar uma grana - pouca - das férias e resolvi passar uns dias em bh.
data resolvida, decidi que, para não correr o risco de estragar de novo, não peguei alforjes nem mala-tanque emprestados. nem protetor de coluna, que acabei ficando com o que o patrick estava vendendo.
(tinha ouvido alguém falar que não usa contact pra 'plastificar' a moto, mas plástico-filme, aquele que se usa em cozinha. pois alguém então mentiu pra mim, pq aquilo não cola nada. só deu pra encapar a alça da garupa, onde eu ia prender minhas coisas. nem a rabeta, para evitar arranhões, eu consegui 'plastificar'. tb achei preciosismo demais desta vez - no ano passado passei contact na moto toda - e encarei sem plástico mesmo. paciência, se a moto tá na estrada, um ou outro arranhão há de rolar mesmo.)
então, eu tinha que levar um volume só, pequeno, na garupa. como esse volume é aquele em que, durante a viagem, a gente não mexe, surgiram alguns problemas: onde levar a capa de chuva, a máquina fotográfica, a toalha super-absorvente e compacta, uma blusa de frio extra e o rolo de papel higiênico. mochila, pensei eu. 'dá pra amarrar tudo na garupa.'
o márcio me disse pra não inventar de levar a mochila nas costas, mesmo leve, pq é um sofrimento cão.
eu tinha duas redinhas de garupa mas, no dia anterior à saída, só achei uma e não tive tempo de comprar outra. só ecoava na minha cabeça o que o robson disse noutro dia sobre saber amarrar bagagem. vi que não ia dar pra amarrar os dois volumes numa redinha só. eu teria que levar a mochila nas costas mesmo. 'eu encaro', pensei.
na noite anterior, como é de meu costume, não pq ache certo, mas pq meu corpo reage assim em vésperas de viagens, fui deitar tarde e não dormi bem. não quis tomar um relaxante receitado pela médica com medo de sentir sono em cima da moto no dia seguinte.
daí, minha previsão de saída se atrasou e eu, que queria ter saído às 5h30, saí às 7h.
a maletinha até que bem presinha na garupa com uma redinha só, a mochila nas costas. tudo dentro da mala ensacado em sacos de lixo grandes e mais três sacos por fora da mala. os alforjes eram à prova d´água; a mala, não. até por isso eu tb não ia poder mexer nela durante a viagem.
blusa de cross, pra não ficar pingando de suor, jaqueta de couro, mochila nas costas. as botas guartelá, calça jeans. luvas, as que comprei na go ano passado, lumica de tecido, já que aquelas alpine do ano passado saem o forro quando a gente tira da mão pra abastecer a moto e fica meia hora tentando botar o forro no lugar. previ que teria problemas com as luvas na estrada, o que, fatalmente, aconteceu.
brasília - cristalina, ok, tirando a pista até o valparaíso que ali, realmente, sem chance de ser feliz. céu azul mas, apesar do avançado da hora, um vento frio que arroxeou meu rosto todo e enregelou os dedos quando parei pra abastecer, depois de 120km.
'bosta', pensei, 'pq raios não botei a balaclava?' subi então o lenço que uso no pescoço, que faz muito bem as vezes de balaclava, é feito pra isso, tapei o nariz até quase chegar aos olhos. frio no rosto não ia passar mais.
de cristalina a paracatu, por causa até da hora do dia, o tempo esquentou bem e eu parei de sentir aquele frio monstro nos braços, já que a luva é curta, de tecido, e o punho da jaqueta um cadim maior que o braço, ou seja: entra um vento frio do caramba.
tô falando disso pra frisar o quão importante é andar com o equipamento certo, pra ocasião e o tempo certos. fosse uma luva de cano longo, teria sido muito mais confortável esse trecho. eu nem ia sentir.
não tinha tomado café da manhã e nem quis tomar. fernanda me disse 'véi, vai tá (sic)
quente, hidrate-se!' vc se hidratou? nem eu.
desta vez resolvi levar dinheiro vivo, pra ser mais rápida na hora de pagar, em vez de tirar cartão, passar cartão, digitar senha, pegar comprovante. no ano passado deu certo e desta vez eu repeti levar a doleira na cintura, no cós da calça, só com dinheiro, doc da moto, cnh e meu cra. cartão do banco, seguro, convênio médico. e chave reserva da moto. chave reserva? sim, chave reserva. sabe-se lá o que pode acontecer.
honestamente, nem quis fazer contas de consumo de moto. só zerei o trip 2 a cada parada pra medir quanto tinha andado e quanto faltava pra próxima parada.
em paracatu o tempo já estava bem quente, um solão danado, tirei o lenço e botei os óculos escuros, que achei que iam apertar a cachola dentro do capa mas nem apertaram.
estava entre 120 e 140, mas no cômputo geral parece que não rende muito pq, quando paro, desço da moto com calma, me alongo sem pressa, fumo um cigarrim. bato um papo com os frentistas, olho o povo que passa, sem pressa. tô viajando, tô sem prazo e hora certa pra chegar, aproveito esse tempo pra curtir o lugar em que parei. mas isso só dá pra fazer viajando sozinho, pq, em grupo, não dá pra atrapalhar o ritmo dos outros. dizendo fernanda que acha que eu enrolo demais nas paradas, isso quando viajei na garupa dela. sozinha, então, aí é que eu 'enrolo' mesmo.
mas, desta vez, mochila nas costas, eu precisava me alongar. nessas duas primeiras pernas, rolou um incômodo, a mochila não se acertava com o volume da garupa, ficava subindo, pesava, eu pensando se, por mais que aguentasse, conseguiria chegar até bh com aquela dorzinha, pq ela vai se intensificando durante a viagem.
de paracatu a joão pinheiro peguei dois trechos em meia pista, quando eles estão consertando o asfalto e param o trânsito de um lado até que todos que já estão esperando do outro passem. isso começou a me atrasar. mas eu nem me estressei, tava um calor do cão e esses percalços fazem parte da viagem.
tudo estaria ótimo se não fosse o povo que anda desse meio do país pra cima ser tão absurdamente mais ignorante e imprudente e mal educado que o povo que anda dessa metade do país pra baixo. em outubro estive no litoral de sp de carro - pela primeira vez - e pude ver como - verdade seja dita - os paulistas andam direito em rodovia. durante muitos anos fui de bsb ao rj passando por bh e já estava mais que acostumada com ultrapassagens absurdas, imbecis, gente cortando pelo acostamento, enfiando o carro na sua frente e fingindo que vc não existe. gente sem camisa dirigindo, bebendo, som alto, mó festa dentro do carro. nada contra, cada um dirige como quer, mas acho que tira um pouco do respeito que se deve ter quando se está numa estrada. principalmente numa de mão dupla. quando estive em sp vi como realmente faz diferença a prudência no trânsito e uma atitude tranquila, sem o desespero dos cariocas e dos brasilienses e dos goianos pra chegar ao litoral. pelo que me lembre, nunca vi placa de minas fazendo muita besteira, mas df, go e rj são campeões. em sp, numa via de três faixas, não tem nenhum espertinho furando fila. é pra andar a sessenta? beleza, todo mundo anda.
no segundo desses intervalos para esperar a liberação da pista (dupla, lembrem-se) fiquei uns 15' em cima da moto, de capa, luva, jaqueta, num calor 'ensurdecedor'. tinha um golzinho numa meia sombra no acostamento, desliguei a moto e empurrei até lá, parei ao lado da janela, perguntei ao motorista: 'posso roubar um cadim de sua sombra?'; 'claro. é yamaha, é?'
movimento dos caminhoneiros à frente, voltando pros seus caminhões, botei luva e capa, liguei a moto e me dirigi ao meu lugar anterior na fila. eu, de moto, convenhamos, podia ter ido de boa até o bloqueio. resolvi que ganho mais sendo educada que usando a moto pra furar uma fila, mesmo assando embaixo daquele sol.
ah, sim, fernanda tinha dito pra eu me hidratar, lembram-se?
qual não foi minha surpresa quando uma bostica dum carro que sei lá se era um palio, um fiesta ou um corsa, um trem assim, pilotado por um completamente juvenil, coitado, embica na minha frente na fila na maior ignorância mesmo, quase encostando na moto e naquela atitude 'sai que eu vi primeiro.'
olhei bem pra cara daquele aprendiz de boçal, pensei, pensei. arrastei a moto pra trás, olhei bem pra cara dele, acenei com a mão dando a vez - estávamos todos parados ainda, na fila - e disse 'pode passar.' era óbvia a minha ironia. é claro que ele passaria, se quisesse, ele é um carro e eu, uma moto, mas fiz questão de dar a passagem.
a cara de c* com cãimbra daquele moleque foi tão grande que eu não sei se ele ficou sem saber o que responder - o que era meu objetivo: constrangê-lo pela desnecessária ignorância e deselegância no trânsito - ou se ele nem entendeu o que tentei fazer e simplesmente continuou me ignorando. mas, claro, passou na minha frente como se eu fosse pó.
tinha um outro fiesta ou corsa ou palio tb que já vinha fazendo merda atrás de merda, forçando ultrapassagem quando era óbvio que não dava, andando naquilo como se estivesse num f1. eu queria mesmo é que todos esses pilotos de araque sumissem na minha frente e deixassem meu campo de visão sem nenhuma ameaça de acidente com peças de carro voando na minha cara. quer ir, meu filho, vai. só não estraga a minha viagem tb.
rapidinho, assim que o bloqueio foi liberado, eles, efetivamente, sumiram.
uma vez ouvi alguém perguntar à fernanda se ela não passava muito susto em estrada. lembro que ela respondeu que 'cara... susto a gente sempre passa'. é isso. em pista dupla, não tem como não ter susto. principalmente pq as pessoas, em sua maioria (atenham-se a esse detalhe: na metade norte do país, e isso é fato), não respeitam nada, condições do tempo, potência do veículo, condições para ultrapassagem, condições e potência dos outros veículos, enfim. nada. vi corcel puxando reboque ultrapassando ônibus.
dei passagem pra outros apressadinhos tb, encosto quase na faixa do acostamento, vai em paz.
beleza. cheguei em três marias. tinha tempo que eu não passava sobre o são francisco. eu sou meio bocó, choro à toa. o rio tava tão lindo, tão limpo, e a minha saudade dele era tão grande, que abri a boca para cumprimentá-lo e... chorei. parecia um velho amigo que eu estava reencontrando, mais bonito, mais novo. queria uma foto sobre aquela ponte, mas não se pode parar sobre uma ponte como aquela para fotografar, certo? nunca vou ter uma foto do são francisco naquele ângulo. só o verei assim quando passar por aqueles, se não me engano, 360m de vão da ponte. tava cheeeeeeeio, viu, por causa dessas chuvas aí, decerto. são as delícias de viajar só. em grupo tem uma graça, mas sozinha eu posso me dar ao ridículo de passar numa ponte e chorar dentro do capacete de saudade... de um rio.
até então eu vinha parando nos postos em que fernanda e brizzo pararam da primeira vez que vim com eles a bh. em três marias resolvi parar no mar doce, onde eu sempre parei naqueles anos em que passava naquela ponte e cumprimentava o rio. memórias são memórias.
foi quando ouvi pela primeira vez 'moça... cê tá so-zi-nha?!' a gente pára e parece que os frentistas ficam esperando o resto de motoqueiros. como a gente abastece, põe luva, capacete, ameça subir na moto e não chega mais ninguém, eles se assustam. eu me divirto.
eu podia ter bebido água, mas bebi? tinha tomado duas garrafinhas mirins de coca-cola e um pão com queijo em joão pinheiro e só. preferi me dar um tempo, olhar o céu, fumar, em vez de um, dois cigarrim. devia ter bebido água. tive medo de ficar apertada pra ir ao banheiro e não ia parar no meio do nada pra fazer xixi que nem o demo me obrigou a fazer no ano passado. já me bastou passar aquele ridículo de agachar numa estrada de terra e passar uma caminhonete cheia de gente uma vez só.
o céu escurecia. brabamente. a capa é a que comprei na volta de sp no ano passado, naquela chuva torrencial que me pegou em ribeirão preto, ggggggg, caberia a mochila dentro. a mala na garupa estava ensacada, mas a mochila eu tinha que proteger. quando ando na cidade com essa mochila e chove, a capa consegue cobri-la numa boa. na cidade. eu ainda não tinha feito o teste na estrada. com coisas mais volumosas dentro, cadê que a capa ggggggggggggggggggggggggg fechava sobre protetor de coluna, jaqueta, colete, mochila? pensei 'fudeu'. não quis forçar o zíper com medo de inutilizar de vez a capa. se não fechasse, eu teria que escolher: ou usar em mim ou enrolá-la na mochila. acabou dando pra fechar, com uma certa forcinha, e eu fiquei tranquila.
eu já vinha mandando sms pra todas as minhas bases: em bsb, fernanda, márcio, rod, pai e mãe. em bh, jota, em sp, robson. jurando que os sms estavam chegando, pq meu celu dizia que tinham sido entregues. só fui descobrir no fim do dia, a 90km de bh, que nenhuma delas tinha chegado e que tava todo mundo sem notícias. sou mirim no assunto, café-com-leite mesmo e sei que se preocupam. eu mesma só me sinto mais segura na estrada, de moto, quando sei que eles estão acompanhando via sms.
ah, sim. por medo de tomar um sacode do robson se eu perdesse a mala por não tê-la amarrado direito, passei a viagem toda checando no retrovisor se o saco de lixo azul ainda estava lá. acho que isso me rendeu uma dorzinha no ombro esquerdo, mas tudo bem. descobri que alforje não me faz muita falta, mas mala-tanque, sim. é fundamental ter as coisas de que talvez vc precise à mão numa viagem de moto.
aí, blz, saio do posto em três marias (nessa sequência: camisa 1, doleira, camisa 2, protetor de coluna, jaqueta de couro, colete de couro, mochila, capa), o céu desaba. típica chuva que ia passar logo, mas enfurecida.
eu não passava de 80 e já achando muito, dando passagem pra qualquer um que quisesse. do asfalto não se via nada, só o rio passando por cima. à frente eu só enxergava até a placa do carro.
uma chuva dessas, quem não haveria de respeitar, não é? o animal que apareceu na minha frente, na minha mão, fazendo uma ultrapassagem numa condição daquelas, a dois km da saída do posto, num movimento daqueles. dei sinal. eu não PODIA sair da pista, tinha o ressalto pro acostamento e a água tinha tampado tudo, tava tudo um espelho d´água só, cheio, molhando a barra da minha calça (que fica fora da capa mesmo, não tem jeito
). o que o senna fez? respondeu meu sinal alto com um mais alto ainda que me pareceu até de xenon, embaixo daquela água toda. tipo 'vaza, motoquinha, que eu vou passar'.
saí, né. não cheguei a descer pro acostamento pq seria queda na certa, então botei a moto em cima da faixa que divide a pista do acostamento. faixa essa que eu presumia onde estava, já que não se via nada sob aquela água. o cara passou do meu lado, chutado. ainda bem que, não sei pq, eu não me apavoro numa hora dessas e, me parece, reajo bem. se vc perde a calma e o controle, vc mesmo se estrepa. só soltei um 'fi-lho-de-u-ma-pu-ta' dentro do capacete e segui. depois me arrependi, pedi aos céus que cuidassem daquele motorista imprudente para que ele não estragasse a vida de ninguém, sabe. não vale a pena sentir raiva numa hora dessas.
este post já tá imenso, vou postar e continuo com outro. ou outros.
mas é legal partilhar com vcs, pra mim é um aprendizado perene e, quem sabe, serve de ajuda tb pra alguém. se ficar chato cês avisam, que eu paro.
vi que ia sobrar uma grana - pouca - das férias e resolvi passar uns dias em bh.
data resolvida, decidi que, para não correr o risco de estragar de novo, não peguei alforjes nem mala-tanque emprestados. nem protetor de coluna, que acabei ficando com o que o patrick estava vendendo.
(tinha ouvido alguém falar que não usa contact pra 'plastificar' a moto, mas plástico-filme, aquele que se usa em cozinha. pois alguém então mentiu pra mim, pq aquilo não cola nada. só deu pra encapar a alça da garupa, onde eu ia prender minhas coisas. nem a rabeta, para evitar arranhões, eu consegui 'plastificar'. tb achei preciosismo demais desta vez - no ano passado passei contact na moto toda - e encarei sem plástico mesmo. paciência, se a moto tá na estrada, um ou outro arranhão há de rolar mesmo.)
então, eu tinha que levar um volume só, pequeno, na garupa. como esse volume é aquele em que, durante a viagem, a gente não mexe, surgiram alguns problemas: onde levar a capa de chuva, a máquina fotográfica, a toalha super-absorvente e compacta, uma blusa de frio extra e o rolo de papel higiênico. mochila, pensei eu. 'dá pra amarrar tudo na garupa.'
o márcio me disse pra não inventar de levar a mochila nas costas, mesmo leve, pq é um sofrimento cão.
eu tinha duas redinhas de garupa mas, no dia anterior à saída, só achei uma e não tive tempo de comprar outra. só ecoava na minha cabeça o que o robson disse noutro dia sobre saber amarrar bagagem. vi que não ia dar pra amarrar os dois volumes numa redinha só. eu teria que levar a mochila nas costas mesmo. 'eu encaro', pensei.
na noite anterior, como é de meu costume, não pq ache certo, mas pq meu corpo reage assim em vésperas de viagens, fui deitar tarde e não dormi bem. não quis tomar um relaxante receitado pela médica com medo de sentir sono em cima da moto no dia seguinte.
daí, minha previsão de saída se atrasou e eu, que queria ter saído às 5h30, saí às 7h.
a maletinha até que bem presinha na garupa com uma redinha só, a mochila nas costas. tudo dentro da mala ensacado em sacos de lixo grandes e mais três sacos por fora da mala. os alforjes eram à prova d´água; a mala, não. até por isso eu tb não ia poder mexer nela durante a viagem.
blusa de cross, pra não ficar pingando de suor, jaqueta de couro, mochila nas costas. as botas guartelá, calça jeans. luvas, as que comprei na go ano passado, lumica de tecido, já que aquelas alpine do ano passado saem o forro quando a gente tira da mão pra abastecer a moto e fica meia hora tentando botar o forro no lugar. previ que teria problemas com as luvas na estrada, o que, fatalmente, aconteceu.
brasília - cristalina, ok, tirando a pista até o valparaíso que ali, realmente, sem chance de ser feliz. céu azul mas, apesar do avançado da hora, um vento frio que arroxeou meu rosto todo e enregelou os dedos quando parei pra abastecer, depois de 120km.
'bosta', pensei, 'pq raios não botei a balaclava?' subi então o lenço que uso no pescoço, que faz muito bem as vezes de balaclava, é feito pra isso, tapei o nariz até quase chegar aos olhos. frio no rosto não ia passar mais.
de cristalina a paracatu, por causa até da hora do dia, o tempo esquentou bem e eu parei de sentir aquele frio monstro nos braços, já que a luva é curta, de tecido, e o punho da jaqueta um cadim maior que o braço, ou seja: entra um vento frio do caramba.
tô falando disso pra frisar o quão importante é andar com o equipamento certo, pra ocasião e o tempo certos. fosse uma luva de cano longo, teria sido muito mais confortável esse trecho. eu nem ia sentir.
não tinha tomado café da manhã e nem quis tomar. fernanda me disse 'véi, vai tá (sic)
desta vez resolvi levar dinheiro vivo, pra ser mais rápida na hora de pagar, em vez de tirar cartão, passar cartão, digitar senha, pegar comprovante. no ano passado deu certo e desta vez eu repeti levar a doleira na cintura, no cós da calça, só com dinheiro, doc da moto, cnh e meu cra. cartão do banco, seguro, convênio médico. e chave reserva da moto. chave reserva? sim, chave reserva. sabe-se lá o que pode acontecer.
honestamente, nem quis fazer contas de consumo de moto. só zerei o trip 2 a cada parada pra medir quanto tinha andado e quanto faltava pra próxima parada.
em paracatu o tempo já estava bem quente, um solão danado, tirei o lenço e botei os óculos escuros, que achei que iam apertar a cachola dentro do capa mas nem apertaram.
estava entre 120 e 140, mas no cômputo geral parece que não rende muito pq, quando paro, desço da moto com calma, me alongo sem pressa, fumo um cigarrim. bato um papo com os frentistas, olho o povo que passa, sem pressa. tô viajando, tô sem prazo e hora certa pra chegar, aproveito esse tempo pra curtir o lugar em que parei. mas isso só dá pra fazer viajando sozinho, pq, em grupo, não dá pra atrapalhar o ritmo dos outros. dizendo fernanda que acha que eu enrolo demais nas paradas, isso quando viajei na garupa dela. sozinha, então, aí é que eu 'enrolo' mesmo.
mas, desta vez, mochila nas costas, eu precisava me alongar. nessas duas primeiras pernas, rolou um incômodo, a mochila não se acertava com o volume da garupa, ficava subindo, pesava, eu pensando se, por mais que aguentasse, conseguiria chegar até bh com aquela dorzinha, pq ela vai se intensificando durante a viagem.
de paracatu a joão pinheiro peguei dois trechos em meia pista, quando eles estão consertando o asfalto e param o trânsito de um lado até que todos que já estão esperando do outro passem. isso começou a me atrasar. mas eu nem me estressei, tava um calor do cão e esses percalços fazem parte da viagem.
tudo estaria ótimo se não fosse o povo que anda desse meio do país pra cima ser tão absurdamente mais ignorante e imprudente e mal educado que o povo que anda dessa metade do país pra baixo. em outubro estive no litoral de sp de carro - pela primeira vez - e pude ver como - verdade seja dita - os paulistas andam direito em rodovia. durante muitos anos fui de bsb ao rj passando por bh e já estava mais que acostumada com ultrapassagens absurdas, imbecis, gente cortando pelo acostamento, enfiando o carro na sua frente e fingindo que vc não existe. gente sem camisa dirigindo, bebendo, som alto, mó festa dentro do carro. nada contra, cada um dirige como quer, mas acho que tira um pouco do respeito que se deve ter quando se está numa estrada. principalmente numa de mão dupla. quando estive em sp vi como realmente faz diferença a prudência no trânsito e uma atitude tranquila, sem o desespero dos cariocas e dos brasilienses e dos goianos pra chegar ao litoral. pelo que me lembre, nunca vi placa de minas fazendo muita besteira, mas df, go e rj são campeões. em sp, numa via de três faixas, não tem nenhum espertinho furando fila. é pra andar a sessenta? beleza, todo mundo anda.
no segundo desses intervalos para esperar a liberação da pista (dupla, lembrem-se) fiquei uns 15' em cima da moto, de capa, luva, jaqueta, num calor 'ensurdecedor'. tinha um golzinho numa meia sombra no acostamento, desliguei a moto e empurrei até lá, parei ao lado da janela, perguntei ao motorista: 'posso roubar um cadim de sua sombra?'; 'claro. é yamaha, é?'
movimento dos caminhoneiros à frente, voltando pros seus caminhões, botei luva e capa, liguei a moto e me dirigi ao meu lugar anterior na fila. eu, de moto, convenhamos, podia ter ido de boa até o bloqueio. resolvi que ganho mais sendo educada que usando a moto pra furar uma fila, mesmo assando embaixo daquele sol.
ah, sim, fernanda tinha dito pra eu me hidratar, lembram-se?
qual não foi minha surpresa quando uma bostica dum carro que sei lá se era um palio, um fiesta ou um corsa, um trem assim, pilotado por um completamente juvenil, coitado, embica na minha frente na fila na maior ignorância mesmo, quase encostando na moto e naquela atitude 'sai que eu vi primeiro.'
olhei bem pra cara daquele aprendiz de boçal, pensei, pensei. arrastei a moto pra trás, olhei bem pra cara dele, acenei com a mão dando a vez - estávamos todos parados ainda, na fila - e disse 'pode passar.' era óbvia a minha ironia. é claro que ele passaria, se quisesse, ele é um carro e eu, uma moto, mas fiz questão de dar a passagem.
a cara de c* com cãimbra daquele moleque foi tão grande que eu não sei se ele ficou sem saber o que responder - o que era meu objetivo: constrangê-lo pela desnecessária ignorância e deselegância no trânsito - ou se ele nem entendeu o que tentei fazer e simplesmente continuou me ignorando. mas, claro, passou na minha frente como se eu fosse pó.
tinha um outro fiesta ou corsa ou palio tb que já vinha fazendo merda atrás de merda, forçando ultrapassagem quando era óbvio que não dava, andando naquilo como se estivesse num f1. eu queria mesmo é que todos esses pilotos de araque sumissem na minha frente e deixassem meu campo de visão sem nenhuma ameaça de acidente com peças de carro voando na minha cara. quer ir, meu filho, vai. só não estraga a minha viagem tb.
rapidinho, assim que o bloqueio foi liberado, eles, efetivamente, sumiram.
uma vez ouvi alguém perguntar à fernanda se ela não passava muito susto em estrada. lembro que ela respondeu que 'cara... susto a gente sempre passa'. é isso. em pista dupla, não tem como não ter susto. principalmente pq as pessoas, em sua maioria (atenham-se a esse detalhe: na metade norte do país, e isso é fato), não respeitam nada, condições do tempo, potência do veículo, condições para ultrapassagem, condições e potência dos outros veículos, enfim. nada. vi corcel puxando reboque ultrapassando ônibus.
dei passagem pra outros apressadinhos tb, encosto quase na faixa do acostamento, vai em paz.
beleza. cheguei em três marias. tinha tempo que eu não passava sobre o são francisco. eu sou meio bocó, choro à toa. o rio tava tão lindo, tão limpo, e a minha saudade dele era tão grande, que abri a boca para cumprimentá-lo e... chorei. parecia um velho amigo que eu estava reencontrando, mais bonito, mais novo. queria uma foto sobre aquela ponte, mas não se pode parar sobre uma ponte como aquela para fotografar, certo? nunca vou ter uma foto do são francisco naquele ângulo. só o verei assim quando passar por aqueles, se não me engano, 360m de vão da ponte. tava cheeeeeeeio, viu, por causa dessas chuvas aí, decerto. são as delícias de viajar só. em grupo tem uma graça, mas sozinha eu posso me dar ao ridículo de passar numa ponte e chorar dentro do capacete de saudade... de um rio.
até então eu vinha parando nos postos em que fernanda e brizzo pararam da primeira vez que vim com eles a bh. em três marias resolvi parar no mar doce, onde eu sempre parei naqueles anos em que passava naquela ponte e cumprimentava o rio. memórias são memórias.
foi quando ouvi pela primeira vez 'moça... cê tá so-zi-nha?!' a gente pára e parece que os frentistas ficam esperando o resto de motoqueiros. como a gente abastece, põe luva, capacete, ameça subir na moto e não chega mais ninguém, eles se assustam. eu me divirto.
eu podia ter bebido água, mas bebi? tinha tomado duas garrafinhas mirins de coca-cola e um pão com queijo em joão pinheiro e só. preferi me dar um tempo, olhar o céu, fumar, em vez de um, dois cigarrim. devia ter bebido água. tive medo de ficar apertada pra ir ao banheiro e não ia parar no meio do nada pra fazer xixi que nem o demo me obrigou a fazer no ano passado. já me bastou passar aquele ridículo de agachar numa estrada de terra e passar uma caminhonete cheia de gente uma vez só.
o céu escurecia. brabamente. a capa é a que comprei na volta de sp no ano passado, naquela chuva torrencial que me pegou em ribeirão preto, ggggggg, caberia a mochila dentro. a mala na garupa estava ensacada, mas a mochila eu tinha que proteger. quando ando na cidade com essa mochila e chove, a capa consegue cobri-la numa boa. na cidade. eu ainda não tinha feito o teste na estrada. com coisas mais volumosas dentro, cadê que a capa ggggggggggggggggggggggggg fechava sobre protetor de coluna, jaqueta, colete, mochila? pensei 'fudeu'. não quis forçar o zíper com medo de inutilizar de vez a capa. se não fechasse, eu teria que escolher: ou usar em mim ou enrolá-la na mochila. acabou dando pra fechar, com uma certa forcinha, e eu fiquei tranquila.
eu já vinha mandando sms pra todas as minhas bases: em bsb, fernanda, márcio, rod, pai e mãe. em bh, jota, em sp, robson. jurando que os sms estavam chegando, pq meu celu dizia que tinham sido entregues. só fui descobrir no fim do dia, a 90km de bh, que nenhuma delas tinha chegado e que tava todo mundo sem notícias. sou mirim no assunto, café-com-leite mesmo e sei que se preocupam. eu mesma só me sinto mais segura na estrada, de moto, quando sei que eles estão acompanhando via sms.
ah, sim. por medo de tomar um sacode do robson se eu perdesse a mala por não tê-la amarrado direito, passei a viagem toda checando no retrovisor se o saco de lixo azul ainda estava lá. acho que isso me rendeu uma dorzinha no ombro esquerdo, mas tudo bem. descobri que alforje não me faz muita falta, mas mala-tanque, sim. é fundamental ter as coisas de que talvez vc precise à mão numa viagem de moto.
aí, blz, saio do posto em três marias (nessa sequência: camisa 1, doleira, camisa 2, protetor de coluna, jaqueta de couro, colete de couro, mochila, capa), o céu desaba. típica chuva que ia passar logo, mas enfurecida.
eu não passava de 80 e já achando muito, dando passagem pra qualquer um que quisesse. do asfalto não se via nada, só o rio passando por cima. à frente eu só enxergava até a placa do carro.
uma chuva dessas, quem não haveria de respeitar, não é? o animal que apareceu na minha frente, na minha mão, fazendo uma ultrapassagem numa condição daquelas, a dois km da saída do posto, num movimento daqueles. dei sinal. eu não PODIA sair da pista, tinha o ressalto pro acostamento e a água tinha tampado tudo, tava tudo um espelho d´água só, cheio, molhando a barra da minha calça (que fica fora da capa mesmo, não tem jeito
saí, né. não cheguei a descer pro acostamento pq seria queda na certa, então botei a moto em cima da faixa que divide a pista do acostamento. faixa essa que eu presumia onde estava, já que não se via nada sob aquela água. o cara passou do meu lado, chutado. ainda bem que, não sei pq, eu não me apavoro numa hora dessas e, me parece, reajo bem. se vc perde a calma e o controle, vc mesmo se estrepa. só soltei um 'fi-lho-de-u-ma-pu-ta' dentro do capacete e segui. depois me arrependi, pedi aos céus que cuidassem daquele motorista imprudente para que ele não estragasse a vida de ninguém, sabe. não vale a pena sentir raiva numa hora dessas.
este post já tá imenso, vou postar e continuo com outro. ou outros.