Enfrentando a Estrada Fantasma - Parte IAcordamos todos bem cedo que a jornada era incerta. Terminamos nossa trecho de BR 230 – Transamazônica e iniciávamos o trecho de BR 319, a Estrada Fantasma.
Enquanto arrumava minhas coisas, Joarez deu notícia de que o pneu traseiro da minha moto estava vazio. Putz, quase não acreditei no que vi, pneu arriadão. Usei um reparador instantâneo de pneus, deixei o café da manhã para lá, e fui em busca de borracheiro. Os dois que encontrei ainda estavam fechados. No Amazonas há fuso horário de 1 hora a menos. Para mim era seis horas e pouco, mas era cinco horas por lá. Voltei ao hotel para arrumar a bagagem e não atrasar a partida. O pneu mantinha-se cheio, o reparador estava funcionando.
Depois de quase derrubar uma caneca de café que o Joarez deixou sobre o banco da minha moto – ô cabra desorganizado! - fomos para um posto na saída da cidade onde havia borracheiro e onde encontramos o Rogério a nossa espera para despedida. O borracheiro local, com fama de bom profissional, examinou o pneu, testou pito e bordas com sabão e não encontrou sinal de furo. Há mais de hora a pressão se mantinha em 27 libras. Meu dilema: verificamos a câmara desembeiçando o pneu ou me meto numa estrada deserta com o pneu inflado com reparador instantâneo? Aconselhado pelo borracheiro, pedi para colocar 20 libras e fiquei com a segunda opção.
Completamos os tanques das motos (27,85km/l) e enchemos os recipientes de reserva. Levei duas garrafas pet com dois litros de gasolina cada. Também amarrei uma garrafa de 2 litros de água sobre as de gasolina, em cima da sacola que ia no lugar da garupa. No dia em que precisávamos sair bem cedo, começamos a viagem as nove e meia... (oito e meia no horário local)
Um pensamento ficou dentro do capacete; será que durante a noite alguém teria esvaziado o pneu da minha moto?
Depois de 20km nos despedindo da BR 230, que vai até Lábrea, com o Joarez sumido atrás, chegamos ao entroncamento com a famigerada BR 319, a estrada Manaus - Porto Velho, que terminou conhecida como Estrada Fantasma. Fotografamos a placa, em péssimo estado de conservação, que informa Manaus a 640km, adentramos a 319 e nada do Joarez aparecer. Preocupados, seguimos adiante. Depois de um pequeno trecho com obras tocadas pelo exército, o asfalto sumiu e o Joarez apareceu.
Aquela tal lendária parada de velhos motociclistas ao encontrar outro em sentido contrário na estrada ainda existe. Aconteceu conosco nos dias de hoje. Três motociclistas vinham em sentido contrário pilotando Bros 150 com bagagem e recipientes para gasolina. Trocamos sinais de luz com o primeiro e paramos para falar com o segundo da fila. No fim, todos se reuniram para uma troca de ideias sobre a estrada, o “de onde vens para onde vais” e desejos de boa viagem.
A 100km depois de Humaitá paramos para completar o tanque na localidade de Realidade. Coube apenas 3,4 litros (29,5km/l), mas era o último posto nos próximos 450km e gasolina e água eram os dois líquidos fundamentais naquele dia.
Uma estreita faixa de asfalto cheio de rachaduras testemunhava que um dia existiu uma estrada em direção a Manaus. A pujança selva ao lado mostrava que em breve a mata cobriria aquela fenda que a cortava. As sobras de asfalto não passavam de poucas centenas de metros. Entre elas havia terreno acidentado, barro endurecido moldado pelas marcas de pneus de caminhões esculpidos na lama seca e muitos pedaços de paus usados para desatolar quem por ali passou na época das chuvas mais fortes. Entre o terreno seco e os pedaços de asfalto, havia os bolsões de lama a lembrar como a estrada fica debaixo de chuva.
Por cerca de meia hora andei forte junto com o Marcelo, divertindo-se como se tivesse numa trilha de final de semana. Vez por outra procurava saber se as garrafas de água e gasolina, que chacoalhavam muito, ainda se mantinham firme nas amarrações. Deixamos, porém, o Joarez muito para trás e, lembrando-me do estado do pneu traseiro da minha moto e não querendo arriscar uma queda, voltei a calçar as sandalhinhas da humildade e da cautela reduzindo a tocada.
As pontes da 319 são um perigo a parte. Todas elas estavam em péssimo estado de conservação e possuíam uma rampa de meio metro nas cabeceiras. Quando se escolhia uma linha de tábuas não se via como seria a saída. Na maioria das vezes havia buracos ou pedras na entrada e saída das pontes, sem esquecer as tábuas partidas, fora do lugar ou mesmo inexistentes. Em nenhuma delas havia qualquer proteção nas laterais, olhar para os lados tentando ver um igarapé era sério risco de queda desastrada. Tenso!
Nos lamaçais, entre as poças barrentas formadas pela passagem de caminhões e a lama do centro ou laterais, o melhor é mergulhar na água, na trilha dos pneus, onde não há lama lisa e grudenta, portanto, com menor risco da moto sair debaixo. Quem esquece desse detalhe termina por comprar terreninho na selva.
Passava de meio dia, o calor era sufocante e o bafo que vinha na mata dava-me a impressão de estar entre dois caminhões. Só quem mantinha a água gelada na bagagem era o Marcelo. Numa parada para matar a sede ganhei um amassado sanduíche de queijo que o Marcelão, lembrando que eu ficara sem café da manhã, guardou para mim. Grande parceiro!
O calor da Amazônia é um tema a parte. A umidade é tanta que tenho a impressão de que a pressão atmosférica é maior. Todo movimento torna-se mais cansativo. Nunca bebi tanta água!
As torres de transmissão da Embratel, que existem a cada 40km na BR 319, são pontos onde se pode escapar de passar a noite no meio da selva. Paramos em uma delas onde havia diversas pessoas trabalhando na capinagem do terreno. Obtive algumas informações e seguimos adiante. 40Km depois, na torre seguinte, Marcelo e Joarez pararam para colocar gasolina reserva no tanque. Ainda não havia necessidade, mas Joarez, com dois galões nas laterais da moto, temia que sua Tènèrè virasse carro bomba iraquiano em caso de queda eventual. Avisei que seguiria em frente devagar, esperando por eles. E lembrei aos amigos que rodassem com cuidado para não caírem, afinal eu não queria ter que retornar...
Em caso de pane numa daquelas torres, grande parte do serviço de telefonia e internet na região deixa de funcionar.
Pilotei sozinho por cerca de meia hora e nada de avistar os faróis das motos dos amigos no retrovisor. O céu nublado e escuro anunciava chuva. Parei sobre uma réstia de asfalto para esperar e as nuvens escuras derramaram um pouco de água sobre a estrada. O vapor que subiu do asfalto deixou a estrada ainda mais fantasmagórica. Estava com sede e a água que eu tinha estava morna. Avistei um cajueiro na beira da mata com frutas maduras ao alcance da mão. Matei a sede e a fome. Cadê os caras que não aparecem?, me perguntava já beirando a angústia. A solidão na selva é opressora. Não tenho ideia de quanto tempo fiquei parado ali, a sensação é de que foi por muito tempo. Uma onça poderia estar se esgueirando naquela mata fechada, me observando sem que eu a visse... de que adiantaria a faca na cintura? Calçava as luvas me preparando para retornar quando vi, duplamente aliviado, as luzes das motos brilhando ao longe.
O que aconteceu? Não precisei da resposta para concluir que é muito fácil comprar terreno naquela BR.
Joarez, por conta do peso da 660 e de sua teimosia em manter os pneus acima de 25 libras, não demonstrou muita intimidade com aquele chão. Cansou precocemente e fez com que diminuíssemos o ritmo. Andei um bom tempo atrás dele, dando dicas e o incentivando a acelerar. Quase me intoxiquei com os gases da peidorrenta Ténéré.
Com a chuva, todo aquele chão ficou liso como sabão. Minha moto deu umas pequenas derrapadas mas manteve-se embaixo de mim. Em um momento dei uma parada e esperei o Joarez chegar. Meti o dedo nos pitos dos pneus da moto dele e baixei a pressão de ar mesmo com ele reclamando que estava saindo ar demais ao que respondi: - Isso é vento, Joarez, não é pó de ouro não pooorrraa! Depois disso a tocada do Juju melhorou substancialmente.
Escurecia quando chegamos a mais uma torre da Embratel. Marcelo e Joarez se encaminharam para o portão e eu, sem alternativa, os segui. Travamos o seguinte diálogo:
- Marcelão, por mim seguimos em frente. Há uma pousada a 30km daqui.
- Joarez tá cansado, Luizão. Olha os beiços do cabra, brancos que nem defunto.
- A gente espera ele descansar...
- E passar essas pontes sinistras à noite?
- Os faróis das motos são bons... a gente vai mais devagar.
- E se alguém cair, furar pneu ou uma moto quebrar alguma coisa?
- Ok, você venceu. Falou a voz do bom senso, passamos a noite aqui.
Realmente, seria uma situação muito ruim, para não dizer temerosa, passar a noite desprotegidos no meio escuridão daquela estrada deserta, sujeitos a insetos, cobras, onças e tudo mais que mais se imaginar. Levaríamos entre uma hora e meia a duas horas para vencer os 30km até a pousada da “muié-da saia-comprida”.
O modelo de construção desta torre não permitia que se armasse redes entre paredes. Havia uma calçada elevada, dois prédios separados e atrás, a torre propriamente dita. Estiquei as sacolas de lona grossa que levei para acondicionar as garrafas com gasolina e fiz minha cama sobre a calçada. Dobrei minha jaqueta e fiz meu travesseiro. Marcelo com muita engenhosidade, depois de umas duas horas conseguiu armar a rede dele usando uma árvore pequena e alguma outra coisa na parede. Joarez dedicou-se a acender uma fogueira tendo para isso lenha molhada e parte da gasolina de reserva.




Inté