Mordomias em JacareacangaAntes do sol de proa começar a me incomodar chegamos a uma praça cujo destaque é uma réplica da estátua do Cristo Redentor ladeada por dois grandes jacarés. Era o trevo de entrada para Jacareacanga. Enquanto fotografávamos, aproximou-se uma pic-up cabine dupla Hilux branca, último tipo, e o cidadão que a conduzia perguntou: Tem água no Ceará este ano? Tem não, este ano tá uma seca danada por lá! Foi minha resposta. Conversamos um pouco, tivemos indicação de hotel e Joarez agradeceu o convite para ir direto pescar na fazenda do cidadão, que prometeu aparecer no hotel para continuar a prosa.
Chegamos ao hotel São Cristóvão depois dos bem 5km para chegar na cidade, que me pareceu ter uma meia dúzia de umas 4 ou 7 ruas. Era sábado, e na varanda do hotel algumas pessoas tomavam cerveja, que era servida de um balcão no canto da varanda. - Também quero uma dessas!, eu disse antes mesmo de descer da moto. Dona Dé, a dona do hotel, que também bebericava uma cervejinha, me serviu uma lata bem gelada. Saúde!, falei levantando a latinha em direção a meus amigos e demais presentes e entornando o líquido.
Levamos as tralhas para um apartamento triplo amplo e limpo. Joarez começou sua tradicional bagunça e eu, tendo tirado apenas as joelheiras, retornei para a varanda e às cervejas. As pessoas da varanda eram hóspedes e amigos de Dona Dé. Não demorou Marcelo apareceu para me acompanhar e Joarez foi tentar fotografar o sol poente nas margens do Tapajós. A Hilux branca estacionou e Edvaldo, era esse o nome do cidadão que nos recebeu na entrada da cidade, sentou-se à nossa mesa.
Edvaldo nasceu no Piauí, em um lugarejo próximo a Oeiras. Jovem, trabalhou de enxada na mão nos roçados do pai. Migrou para a Amazônia onde passou a viver da venda de mercadorias em garimpos. Hoje, junto com a esposa é o maior comerciante de Jacareacanga, além de possuir fazendas de criação de bovinos da raça nelore para abate e criatório de tambaquis. Nenhum empregado do Edvaldo recebe salário mínimo. “Não quero gente que mereça apenas um salário mínimo trabalhando para mim”, ele diz.
A conversa na varanda do hotel seguiu animada, Joarez já inserido, quando Edvaldo nos convidou para irmos comer uns espetos de picanha em umas barracas numa praça por perto. Marcelo se adiantou e pagou toda a conta da mesa, ato que pareceu-me ter deixado nosso novo amigo contrariado e ao mesmo tempo positivamente surpreso.
De carona na Hilux fomos ao espaço de festas, bingos e barraquinhas de alimentação ao ar livre da cidade. Eu ainda de bota, calça e camiseta empoeirada da viagem. Logo a esposa e filhos de Edvaldo chegaram. Continuamos as conversa, as cervejas, além de alguns excelentes espetos de uma suculenta picanha acompanhados de um bom baião de dois. As picanhas, aliás, eram provenientes da fazenda do nosso anfitrião.
Em viagem de moto, posso estar sujo de poeira, jamais fedido. Acho que era o caso de nós três. Dividindo apartamento com mais dois, na maioria das vezes priorizei tomar um bom banho somente na hora de dormir.
Sempre ouvi dizer que o óleo spray WD40 era bom para muita coisa. Lembro que vi uma lista que circulava na Internet que incluía o óleo em tratamento de tanta coisa que até hemorroidas poderia ser curada com seu uso... O fato é que o Marcelo sugeriu dar uma borrifada de WD40 no dispositivo de abrir o capacete. Não é que funcionou!
Todas vezes que abria o bauleto, a sacola onde estavam as roupas e a máquina fotográfica grande estava revirada, fora da posição em que havia sido colocada. Acho que ela, apesar de bem apertada no baú, muitas vezes dando trabalho para fechar, ficava girando lá por dentro com o chacoalhado constante da moto na estrada. Espero que a máquina e a lente aguentem bem.
Tomamos um delicioso café da manhã feito pela dona Dé, juntamente com alguns hóspedes. Entre eles o médico do município, um sr de certa idade que mora no hotel e um engenheiro de Belo Horizonte, que estava na região prestando serviço especializado no maquinário de garimpo. Dele vimos um vídeo no celular em que a porta do avião em que estava indo a um garimpo se abre em pleno vôo. Segura aí!, dizia o piloto. E o mineiro, sentado sobre galões de diesel mantinha a porta fechada com uma mão enquanto a outra segurava o telefone para filmar.
Antes da oito hora Edvaldo, com um jet-ski atrelado à Hilux nos convidou a ir para as praias do rio Tapajós pertinho dali. Barraquinhas, peixes assado em braseiros, barcos e voadeiras de todos os tamanhos e até uma casa flutuante havia por perto. Também índios que chegavam ao lugar em barcos motorizados e que evitavam trocar olhares com as pessoas. Tipos estranhos esses índios aculturados.
Com todos usando coletes salva-vidas, Edvaldo levou cada um de nós na garupa do jet-sky até um banco de areia no meio do rio. Água de um esmeralda transparente. Depois ensinou Marcelo e Joarez a pilotarem a potente máquina aquática Yamaha de 1000cc. Em cada um ele provocou, com uma manobra mais radical, um tombo na água ante de passar o comando do jet-sky. Ele insistiu para eu ir, mas não estava a fim de emoções fortes, não. Bastava-me a estrada. Nos divertimos bastante banhando-se na suave correnteza do rio.
Aceitamos o convite para almoçar na casa do Edvaldo. Acertamos as contas no hotel, arrumamos as moto para viagem e fomos recebidos pelo anfitrião e família. Em Apuí, nosso próximo destino, acontecia um grande rodeio e, segundo informações, não encontraríamos vagas em nenhum hotel. Edvaldo fez uma ligação telefônica, perguntou-nos se haveria problema em dormirmos numa casa. Não, não havia problema, respondemos informando que levávamos nossas próprias redes de dormir. Deveríamos então procurar um contato no hotel Silverado, em Apuí.
Almoçamos tambaquis na brasa e experimentamos a sobremesa de açaí, uma delícia. Era uma e meia da tarde quando nos despedimos desse camarada gente boa e de sua família. Ficaram de nos contatar ao irem a Fortaleza, planos para meados de 2014.
Abastecemos na saída da cidade. Minha moto rodou 410km e, incluindo os três litros colocados no Km180, coube 10,3 litros no tanque. Fez 30,83km/l. Se não tivesse colocado gasolina extra ainda teria mais de dois litros para rodar. É melhor não arriscar ficar num “prego seco” na Transamazônica!
Apuí dista quase 300km de Jacaré (já íntimo do lugar), e fizemos o trajeto na mesma rotina de balsas, poeira, pedras, buracos e erosões de sempre. Rodamos cerca de 50km e, depois de tanto tempo na Amazônia, finalmente entramos no Estado do Amazonas. A placa que sinalizava a divisa era de um estabelecimento comercial – Magazine do Norte – em Apuí, que por acaso percebi largada na beira do mato. Parei escorei a placa no pneu da moto e registrei nossa entrada no maior Estado da Federação.
Cruzamos o Rio Sucundurí numa balsa e em seguida paramos para descanso e água na vila de mesmo nome. As casas sobre palafitas indicavam o quanto o rio crescia nas cheias. No estabelecimento que entramos, muito limpo e arrumado, havia um cartaz informando: não atendemos do por do sol de sexta feira ao por do sol do sábado. Exigência da seita. Embaixo dos palafitas havia crianças encantadas com filhotes recém-nascidos de uma cadela. Liliane, que nos atendeu, contou que tinha parentes em São Luís. Incentivei ela a viajar perguntando quanto tempo ela não via o mar. Há trinta e dois anos, ela respondeu informando sua idade.


