Aline Lander escreveu:...obrigada por compartilhar conosco esta viagem

...gosto muito do teu texto !!
Obrigado, Aline! Fico feliz em ter leitores como vocês.
Mais um capítulo:
Santarém e Alter do ChãoRodamos mais 170km sob calor forte e poeira até chegarmos a Rurópolis por volta da duas horas da tarde. A cidade fica no entroncamento da BR 163 Cuiabá/Santarém com a BR 230 Transamazônica. Lugar movimentado com tráfego pesado de caminhões transportando a safra de grãos da Região Centro-Oeste. Enquanto descansávamos, fazendo um lanche e jogando água na cabeça para espantar o calor, Joarez notou que sua moto estava sem a placa. Certamente ela foi perdida na localidade anterior cujo nome é Placas, mas como não havia placa nenhuma – vai ver que se perde muita placa por lá. A solução foi Joarez comparecer à delegacia local para preencher um Boletim de Ocorrência e seguir viagem. Mas como demorou este BO! Perdemos umas duas horas na espera.
Era quase quatro horas. Vamos para Santarém? Bora, concordamos todos. Seriam cerca de 200km ponteados de asfalto, barro e obras na estrada conduzidas pelo exército, muitas obras com muitos desvios.
Margeando a Floresta Nacional do Tapajós rodamos por um pequeno trecho asfaltado e logo começou o trecho de barro, foram 70km com muita poeira levantada pelo caminhões com dupla ou tripla carreta – os famosos treminhões. Ultrapassar ou cruzar um monstro desses era uma operação que exigia muito cuidado.
Muitas vezes tivemos que contornar a estrada por improvisados e mal sinalizados desvios. Também tivemos que pilotar sobre piso molhado recém revolvido por máquinas de terraplanagem. Um cuidado a parte: O pessoal que opera o maquinário do exército, diferentemente dos civis, não costuma prestar muita atenção nos passantes, principalmente nas pequeninas motocicletas.
Os 120km finais para chegar a Santarém era de asfalto. Porém uma reta ladeada por densa floresta, numa monotonia tal que amplificou nosso cansaço. Não havia um posto de gasolina, sequer um boteco para uma paradinha, nada, só o retão cortando a selva. Ainda por cima, com o dia se esvaindo, caiu uma breve chuva e levantou vapor do asfalto e este começou a exalar um nauseante cheiro de óleo diesel.
O odômetro parcial da minha moto marcava mais de 350km rodados e fazia algum tempo que o alerta da reserva tinha sido acionado e nada de Santarém aparecer. Finalmente apareceu um posto na localidade de São José, já perto da cidade. Coube 12,50 litros de gasosa no tanque. Foi o maior estirão com um tanque só que fizemos. Acho que ainda daria para rodar mais de 50km com segurança. O consumo entre Uruará e Santarém foi de 28,89km por litro.
Estávamos um dia adiantados em relação a programação original da viagem.
Entramos em Santarém, que tem cerca de 300 mil habitantes, já noite feita. Ao fim da BR entramos à direita e seguimos pela orla entre a cidade e o rio Tapajós. O primeiro hotel que vimos, apesar da boa aparência, não havia garagem fechada para as motos e sem nem mesmo parar, continuamos o passeio em busca por hospedagem. Rodamos por mais de meia hora com o calor fazendo-nos suar dentro do capacete até que resolvemos voltar ao primeiro hotel que vimos, o hotel Tapajós, onde fomos muito bem recebidos e o preço da diária não era de arrancar o couro do vivente. Como havia vigilância, deixamos as motos estacionadas bem próximas à portaria do hotel. O apartamento triplo era bom e completo.
Por sorte encontramos hotel com vagas em Santarém. A tradicional festa do Çairé, que chega a atrair 100 mil pessoas, havia sido adiada em uma semana. A tradição existe há cerca de 300 anos. Atualmente o Çairé é festejado no mês de setembro e consiste em um ritual religioso que se repete durante o dia, culminando com uma cerimônia noturna com ladainhas e rezas. Depois vem a parte profana da festa, representada pelos shows artísticos, com apresentações de danças típicas e pelo confronto dos botos Tucuxi e Cor-de-Rosa. São cinco dias de muita música, dança e rituais resultantes do entrelaçamento social e cultural entre os colonizadores portugueses e índios da região do Tapajós.
Um saco todo dia tirar a tralha da moto composta por bauleto e sacola amarrada no lugar da garupa com aquela ruma de elásticos para sustentar a bagagem com segurança no sacolejo das estradas para no dia seguinte montar tudo novamente. E lembar que eu havia pensado em levar na bagagem pneus tipo cross para os momentos de lamaçal...
Refeitos do dia na estrada fomos procurar lugar para a refeição do dia. Um taxista que fazia ponto no hotel nos levou a um restaurante especializado em peixes. Se come peixe na Amazônia! Estranhamos os 20 reais cobrados pelo taxista em tão curta distância percorrida. Perguntamos o custo real a um outro taxista que estava estacionado por perto e soubemos que fomos roubados em 8 reais. Nos hidratamos fartamente com cerveja e comemos um ótimo peixe. Ao buscarmos condução para voltar, ora vejam, o mesmo taxista malandro que nos levou passava no local. Entramos no carro e contestamos o valor cobrado na ida. Inventou uma desculpa esfarrapada e, constrangido, não nos cobrou a viagem de volta.
Após o café da manhã, levamos as motocicletas para lavagem geral e troca de óleos e filtros na concessionária Yamaha Tapajós Motocenter. Antes contratamos o Messias, um taxista – o mesmo pecador redimido da noite anterior – para nos apanhar na revenda e nos levar para um dia inteiro em Alter do Chão, cerca de 30km de Santarém, negociado em R$100,00. Fomos muito bem recebidos pelos gerentes e mecânicos da concessionária, fizemos todas recomendações que achávamos necessárias e, antes de Alter do Chão, fomos em busca de alguém que consertasse o capacete do Joarez que desde o começo da viagem não abria a viseira. Infrutífera busca.
Joarez escrevendo:
"A Concessionária da Yamaha de Santarém é diferenciada em termos de atendimento. Muita atenção, gentileza e serviços de qualidade. Providenciaram, inclusive, a substituição da minha placa que perdi numa "pequena" erosão na estrada. Foi mais ou menos assim: Vinha subindo uma grande ladeira e quando chego ao topo cruzo com um veículo e um manto de poeira cobre tudo. Diminui a velocidade rapidamente. Não sei exatamente por onde passei, mas senti um solavanco enorme que serviu de impulso para ficar de pé na moto. Freios traseiros acionados, senti a moto derrapando por alguns instantes e pude finalmente perceber que estava dentro de uma vala de erosão muito grande que me levava pra fora da estrada. Mantive a calma - aí Jesus, ai Jesus... - e visualizei, alguns metros á frente, uma marca de pneus de caminhão que tinha derrubado o beiral da vala. Foi por ali mesmo que escapei do buraco e de entrar mata adentro... Sinistro!! Só percebi a falta da placa em Rurópolis, muitos quilômetros a frente. O pitoresco do acontecido, foi que placa da moto caiu exatamente no Município de Placas-PA. Será que é coincidência ou destino?? rsrsrs"Alter do Chão é considerado o Caribe do Amazonas, apontada como a mais bela praia fluvial do mundo pelo jornal britânico The Guardian. Quando as águas do rio Tapajós baixam surgem ilhas com belas praias de areia branca banhadas por águas transparentes num tom verde esmeralda. Há diversos barqueiros fazendo a ligação entre o casario do lugar e as ilhas onde ficam as barracas de palha que servem bebidas, peixes e os mais variados petiscos regionais.
Ficar o dia todo bebericando numa barraca de praia fluvial não me parecia ser a melhor opção para quem vive no Ceará, terra cheia de praia maravilhosas. Sugeri aos amigos a opção de passeio de barco que nos era oferecida por um barqueiro do lugar. Havia diversas opções e concordamos em fazer uma passeio completo navegando numa voadeira de alumínio. Marcelo negociou o valor e aceitamos pagar R$300,00 desde que fosse incluído no pacote duas caixas de cerveja e isopor com muito gelo. Também incluímos o nosso taxista no passeio, afinal, deixar o cabra o dia todo a nos esperar não seria legal.
Entramos no pequeno barco. Marcelo na proa, eu o Joarez no meio, Messias atrás e Moisés, o barqueiro na popa comandando um motor de 40hp. Como eu levava minha máquina fotográfica grande, a Nikon D5100, avisei logo que o passeio deveria ser “sem emoção”. Bobagem, minutos depois de sairmos da área da praia – desconfio que por ordem do Marcelo – Moisés acelerou a voadeira que começou a saltitar feito touro de rodeio nas águas do Tapajós. Parecia que estávamos no mar! A água começou a respingar fortemente sobre nós e por sorte Joarez providencialmente levava sacos plásticos grandes para proteger o equipamento. Nunca naveguei em rio tão grande e largo, lembrei-me do nosso Jaguaribe.. o maior rio seco do mundo. Eita Ciará pai d’égua, é água muita!
Navegamos por mais de três horas. Paramos na praia de Ponta de Pedra e nos deliciamos com um peixe assado na brasa chamado charuto e aproveitei para secar a pochete com documentos e o equipamento fotográfico. Contornamos ilhas entramos em igarapés, vimos casas isoladas e igrejas suspensas por palafitas, caminhamos entre imensas árvores, chegando até bem próximo do encontro do Tapajós com o Amazonas.
Joarez escrevendo:
"Esse passeio de barco foi um dos pontos altos na nossa viagem. Muito legal e foi com emoção!! Além de Ponta de Pedra, conhecemos o canal do Rio Jari. Uma espécie de mini pantanal, cheio de pássaros e iguanas. Descemos numa faixa estreita de terra no meio rio, acho que era uma ilha e caminhamos no meio daquele cenário repleto de natureza intocada. O guia pelejou, pelejou, até que encontrou um jacaré - no caso uma jacaretinga - para mostrar que os bichos frequentavam o lugar."Navegando, tomávamos cerveja e vez por outra era necessário verter o líquido... mesmo todo molhado, numa parada que a voadeira fez bem próximo à terra para o Joarez tentar pescar algum peixe (o cabra levou equipamento de pesca na bagagem!), saí do barco com roupa e tudo para me aliviar da vontade de fazer xixi que já estava na últimas. Mal entrei na água, que era tão profunda que não toquei no fundo, o barqueiro Moisés gritou: - cuidado que aí tem piranha! Putz! Voltei imediatamente para o barco virando-me de bruços mantendo as canelas levantadas para não tocar na água e terminei o que estava fazendo. Curioso que Joares e Moisés tentaram pescar no mesmo lugar e nada beliscou os anzóis...
Joarez escrevendo:
"O Luiz contaminou a água, arre égua!! Estava louco para pescar o almoço, mas foi frustrante. Valeu pela comédia. Nunca vi o Luiz Almeida mais branco e com cara de desespero, quando o guia sentenciou: "Ai tem piranha!!". Pense num cabra que se converteu na mesma hora!! Valha-me Deus!! Eu e o Marcelo quase passamos mal de tanto rir....rsrs "Ao retornarmos a Alter do Chão, demos uma parada nas praias das ilhas para um relaxante banho naquelas tépidas águas. Retornando à vila, acertamos as contas com o barqueiro, agradecemos o dia e entramos no táxi de volta a Santarém. À noite fomos comer um tacacá, acho que de micro-ondas de tão diferente do tradicional que eu conhecia e apreciava. Marcelo e Joarez, que não conheciam o tacacá, também não gostaram da iguaria tipica servida naquele restaurante metido a chic.
Inté!