Herói ou vilão?
Especialistas comentam apoio de leitores a motorista que matou ladrões na Taquara
RIO - Entre os 1639 comentários feitos pelos leitores do site de O Globo até às 17h10m desta sexta-feira sobre a reportagem do motorista que perseguiu, atropelou e matou dois bandidos na Taquara, na última quinta-feira , a maioria o apoiava. Tratado como herói, vários leitores defenderam que o motorista fosse premiado pela atitude:
"Os ocupantes do carro merecem uma medalha e que o estado arque com os custos do conserto do carro, tendo em vista terem feito o trabalho da polícia", afirmou o leitor Rodrigo Rodrigues.
Já o leitor Everaldo Oliveira do Nascimento pediu leis mais duras contra os criminosos:
"É preciso aumentar as penas. Os deputados deveriam, ao invés de ficarem fazendo leis para eleição com lista fechada, elaborar leis para segurar os bandidos por mais tempo nas cadeias."
Para compreender as reações do público, o site do Globo ouviu diversos especialistas e eles foram unânimes: a radicalização das posições está ligada à sensação de insegurança e impunidade vivida pela população.
A cientista social e coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes (CESeC/UCAM), Silvia Ramos, afirmou que se surpreende com as opiniões, mas as compreende:
- As reações a estes casos são catárticas. A pessoa assiste a vários tipos de violência e acaba se tornando uma panela de pressão. Aí, quando a vítima se torna agressor, acontece uma identificação. É aquela história que um dia é da caça, outro é do caçador.
Silvia disse ainda que o sentimento de revanche cresce com a descrença cada vez maior na justiça:
- Esses sentimentos são fruto da impunidade, da sensação absoluta de se estar entregue aos criminosos. No Rio, apenas 8% dos homicídios são solucionados, o que é muito pouco.
O sociólogo e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Ignacio Cano, concorda que a sensação de impunidade contribui para reações indignadas. Contudo, ele questiona o tratamento de herói dado ao motorista:
- A figura do justiceiro é muito forte no imaginário popular. Ela aparece quando as pessoas passam acreditar que vale-tudo, que é cada um por si. No entanto, o justiceiro é um anti-herói, já que para preservar a lei, ele atropela a própria lei.
Já o psicanalista e professor da Uerj, Joel Birman, relaciona o tratamento de herói dado a quem mata bandidos com o vácuo deixado pelas instituições que deveriam proteger a população:
- A defesa da pena de morte, do linchamento, é um sintoma de que as pessoas não se sentem protegidas pelos dispositivos de segurança e passam a acreditar no olho por olho, dente por dente. O abandono da população pelos seus representantes, com as atuais denúncias no Congresso, alimenta ainda mais esse sentimento - disse Birman.
Fonte: O Globo On Line
http://oglobo.globo.com/rio/mat/2009/05 ... 769662.asp