Subversão a BordoDomingo. Antes do dia raiar eu fui para a proa apreciar o momento. O comandante do Liberty era um homem de poucas palavras, cada resposta tinha que ser extraída. Falava muito baixo e parecia ser uma pessoa tristonha, não o vi sorrir. Já o imediato, mais idoso, me pareceu mais acessível e feliz com o que fazia. O “segundo escalão” composto pelos pilotos, Márcio e Kin, e o cozinheiro, Willie, além de outros tripulantes, só começaram a nos ver como gente ao longo da navegação. E isso melhorou muito nossa vida a bordo. Afinal, foram cerca de 80 horas de viagem.
O café da manhã de bordo, R$5,00, compunha-se de pão com queijo frio, café, leite, e um mingau de arroz que refuguei na primeira colherada. Desisti tomar café da manhã e comparecia ao restaurante apenas para filar um cafezinho preto, permitido por uma jovem tripulante com mais de seis meses de gestação, que se mostrava mais amigável que a galega do bucho caído.
Ao longo da viagem o navio faz diversas paradas para entrada e saída de passageiros e para carga e descarga. Isso geralmente demorava entre meia e uma hora. A parada em Santarém, no meio da manhã, seria bem mais longa, portanto, aproveitamos, nós, o paulista e o Lorim, mais dois tripulantes, para desembarcar. Em um táxi fomos aos mercados da cidade, compramos muitos peixes – mapará, curimatá, tambaqui, etc - caixas de cerveja que foram contrabandeadas para bordo (era proibida a entrada de bebidas alcoólicas a bordo e havia monopólio das skins a seis reais...), farinha e carvão. Com ajuda do “segundo escalão” e demais do lado bom da tripulação, escondemos nossas cervas no freezer da cozinha, acendemos uma churrasqueira no primeiro piso do navio, área de carga, e tivemos um domingão muito animado, com fartura de peixes na brasa, aquela saborosa farinha paraense e uma cervejada e tanto. Bom demais!
No meio da farra, Marcelo derrubou acidentalmente minha máquina grande, a Nikon D5100 com lente 18-300mm, que estava dentro da sacola e sobre a proa de uma voadeira embarcada. Quedinha besta, mas... Tentei de todas a maneiras ao meu alcance, porém a máquina não mais funcionou. E logo ela com a qual eu esperava fazer as melhores fotos das paisagens e pessoas ribeirinhas... Felizmente, soube depois do reparo da máquina em Fortaleza, que a lente não foi danificada. O que aconteceu, segundo o técnico, foram parafusos do espelho que se soltaram ou quebraram, e que a queda apenas foi a gota d’água para o fato. Seja como for, foi frustrante não fazer as fotos que tanto esperava...
Durante a navegação conhecemos um subversivo de verdade, diferente de nós que éramos apenas uns desordeiros... Sr Orlando, setentão cujo sonho maior é criar os Estados de Tapajós, Carajás e Solimões, para depois separar a Amazônia do Brasil fundando a República Sustentável do Amazonas. O cidadão falava e falava sobre os erros a séculos cometidos pelo Brasil na Região, sobre fáceis soluções para problemas complexos numa interminável conversa. Eu, cansado de tantas elocubrações, perguntei: - E os políticos desse novo país e estados seriam os mesmos que vocês têm aqui? A partir daí seu Orlando preferiu ocupar os ouvidos do paulista Edson.
A Amazônia tem mesmo muitos problemas. Mas não será com separatismo que eles serão resolvidos. Vi miséria, muita miséria por onde passei. Porém uma miséria diferente da que logo imagina um nordestino, aquela miséria cujo maior componente é a fome. Não, a miséria da Amazônia é uma miséria sem fome, com fartura de alimentos até. A miséria de lá é a miséria do isolamento, da falta de estrutura, do difícil acesso ao estudo, da precariedade de atendimento médico ambulatorial ou hospitalar, a miséria das doenças endêmicas e da impossibilidade de progredir. Fiquemos por aqui que eu não sou o seu Orlando...
A segunda feira teve uma manhã longa. Acomodei-me na proa para leitura e observação da paisagem. Quando o sol chegou onde eu estava me mudei para a popa, onde continuei a ler apesar do barulho dos motores e da música brega do bar comandada pelo Tom. Em todas as paradas busquei captar um pouco da vida das pessoas através da fotografia. Em outras descemos e fizemos lanche fora do navio. Suprir na geladeira da cozinha com caixas de cerveja nunca era demais.
Três noites dormindo naquele beliche. Chegou a terça feira, último longo dia da viagem e a pergunta no ar era: A que horas chegaremos a Belém?
O rio Amazonas chega ao mar através de uma imensa ramificação de canais. Nestes canais muitas crianças remavam dezenas de pequenas e frágeis canoas para, aproximando-se do navio, ganharem sacos de salgadinhos que os passageiros jogavam de bordo. Há histórias de acidentes fatais envolvendo essas crianças. Meninos e meninas com menos de dez anos de idade agitavam os bracinhos para cima e para baixo no afã de ganhar uma guloseima. À tarde a luz estava perfeita para fotografar esse pitoresco hábito. Como senti falta do foco rápido da minha Nikon! Ao mesmo tempo que observava e registrava as canoas com as crianças, sentia um aperto no coração com a situação destes brasileirinhos tão isolados arriscando a vida por um saco de salgadinho barato. Mesmo longe da margem, ciscos caíam nos meus olhos.
A que horas chegaríamos em Belém? Essa era a pergunta sem resposta durante toda aquela terça feira. Ninguém da tripulação tinha certeza de nada. Falou-se na opção de desembarcarmos em Barcarena, distante 120km de Belém e com uma balsa no caminho. Encilhamos as motos com as bagagens deixando-as prontas para partir. No entanto, anoiteceu e o Liberty Star não parou em Barcarena. Depois de angustiante espera, o navio começou a atracar em Belém as 22,00h. Estávamos decidido não passar mais uma noite naquele camarote e queriamos desembarcar a moto imediatamente. Impossível, a maré estava baixa, deixando grande desnível entre o barco e o cais, e a burocracia portuária não liberaria as motocicletas antes do início do expediente do dia seguinte.
Caso desembarcássemos sem as motos, no dia seguinte não poderíamos adentrar o cais e dependeríamos terceiros para nos entregar as motocicletas. E agora?
Quando os passageiros, comandante e imediato desembarcaram, nossos amigos do segundo escalão encontraram a solução para nós e os demais que estavam com veículos a bordo. Desatracaram o navio e o conduziram a um atracadouro clandestino, num lugar esquisito, escuro e cercado de construções de madeira sobre palafitas. Desembarcamos a pé e aguardamos a maré encher tomando cerveja e comendo linguiças num boteco meio barra pesadíssima juntamente com nossos amigos e tripulantes.
Era madrugada quando a maré chegou a um nível que possibilitava a colocação das rampas de madeira para o desembarque dos veículos. Ao posicionar as pesadas pranchas um tripulante caiu na água escura entre o barco e o atracadouro. Temendo que ele tivesse batido a cabeça em um pilar de madeira, cheguei a fazer o gesto de soltar a pochete para saltar e ajudar o camarada, porém, antes de qualquer outra ação, ele emergiu rapidamente da água e, mais rápido ainda, jogou seu telefone celular para cima, salvando-o. Estava bem, apenas molhado. Logo jogaram uma corda e o cabra foi içado.
Nos despedimos dos amigos prometendo manter contato. Esgueirando-nos por ruelas sombrias, pilotamos até encontrar as avenidas desertas, pegamos um rumo e, com a orientação obtida em viatura policial, chegamos, por fim, ao hotel Ferrador as duas da madrugada. O dono, que ainda estava acordado, nos recebeu muito bem e fomos instalados em um confortável apartamento.

Encontro das águas do Tapajós com o Amazonas. Santarém ao fundo.

Luar







Inté