Navegando no Rio AmazonasTomamos café da manhã e levamos as motocicletas sem bagagem ao porto para o embarque. A burocracia portuária demora um tanto, aguardamos sob forte calor os trâmites e, meia hora depois, finalmente estávamos com as motos no píer de embarque. Muita gente aparece se oferecendo para ajudar a colocar as motocicletas a bordo do navio, malandros e mais malandros pedindo 50 reais para ajudar. Marcelão, o negociador, entra em cena e aceita pagar 10 reais... Quando vimos a rampa de madeira ligando o cais ao navio entramos sem a ajuda de ninguém. Imaginem a cara de contrariedade do Marcelo pagando os malandros!
Recepção fria por parte das duas tripulantes encarregadas do recebimento da documentação das Ténérés. Havia grande carga de cebolas e outras sacarias a ser descarregada do navio.
Disseram que nossa passagem era para camarote sem banheiro privativo. Ôpa, o corretor nos vendeu com banheiro! Só pagamos porque era com banheiro! As tripulantes antipáticas e irredutíveis cruzam os braços até que Júnior, um camarada de óculos escuros da moda, com jeitão de cowboy, o dono do Liberty Star, manda que elas nos forneçam um camarote com banheiro. Camarote é sem banheiro. Suíte é que tem banheiro... A contragosto, tivemos que deixar os documentos das motos com as tripulantes. Norma da navegação.
Falaram para a gente embarcar por volta do meio dia e que o navio zarparia às 13:00h. Com a chave da suíte 18 nas mãos retornamos ao hotel de táxi, para arrumar bagagem e acertar contas. Ainda de táxi, retornamos ao porto com toda a tralha que estava sobre as motos no porta malas, chegamos ao porto na hora determinada. Novamente passamos mais de meia hora na burocracia portuária para o táxi ir até o píer. Um carregador de idade já meio avançada se ofereceu para levar toda nossa bagagem até o camarote. Já sabendo da malandragem do lugar, perguntamos quanto cobraria. Melquisedeque, o carregador não malandro, disse que aceitaria o que pagássemos. Levou toda nossa tralha de uma vez só e ficou deveras satisfeito com o que o pagamos.
Instalados no camarote, ou melhor, suíte 18, apertadissimamente instalados para ser mais preciso, Marcelo escolheu a cama de baixo do beliche e tentamos colocar alguma ordem na arrumação das bagagens naquele exíguo espaço, metade no chão metade dividindo a cama com a gente. Pelo menos o ar-condicionado era muito bom. Circulamos pela embarcação e percebemos que teríamos tempo para almoçar nas redondezas do porto. Fora da área portuária almoçamos, compramos água, revistas e algumas lembranças de viagem compatíveis com nosso meio de transporte.
De volta ao navio, Marcelo foi tirar um cochilo e eu fiquei a ver o movimento no porto e na embarcação, fazendo alguma foto aqui e ali. Caminhões, carregadores braçais, cargas de todo tipo sendo colocadas ou retiradas das diversas embarcações atracadas, gente armando redes de dormir nos salões do navio, pequenos barcos transitando entre os maiores, por fim, muita movimentação à minha volta. O Liberty Star tem três andares; o primeiro piso e o porão para carga, a enfermaria e a cozinha também ficam no primeiro piso. No segundo andar fica o restaurante de bordo e o salão vip, onde se arma redes de dormir em ambiente com ar-condicionado, no terceiro andar fica o salão para redes sem ar-condicionado, os camarotes, a cabine de comando na proa, e na popa, o bar e lanchonete. Em todos os pisos há camarotes especiais para a tripulação, alguns amplos e com cama de casal – dever ser o do dono do barco.
O estado geral da embarcação não era bom. Parecia que faltava manutenção geral, da pintura às instalações sanitárias. Mas também não estava caindo aos pedaços. Soube que cada viagem, entre carga e passagens, rende cerca de R$180 000,00. Possui dois grandes motores de 400 hp cada, mais outro motor que aciona o gerador que abastece de eletricidade toda embarcação, incluindo dezenas de aparelhos de ar condicionado.
Chegou quatro horas da tarde e nada do navio sair do cais. Ainda descarregavam sacas e mais sacas de cebola. Nossas motos estavam bem amarradas e protegidas por pedaços de papelão. Fui ao bar e tomei um grande susto: cerveja Bavária ou Nova Schin a seis reais a latinha! Égua! Vou a falência, pensei.
Anoitecia quando o navio finalmente zarpou. Fiquei observando o movimento no rio e tentando fazer algumas fotos do crepúsculo. Conhecemos o Edson, motociclista do interior de São Paulo, Poranga, cuja V-Strom 1000 estava amarrada ao lado das nossas motos. Também fizemos amizade com o “Lôrim”, um cearense figuraça que comercializava com sucesso roupas de grife proveniente das Guianas.
Resolvemos jantar no restaurante de bordo. Marcelo teve o prato literalmente tomado pela azeda tripulante que dizia ter que ser ela a fazer o prato. Pagamos R$15,00 e não podemos nos servir? Quando ela colocou grosseiramente arroz e macarrão no prato, o Marcelo disse que não queria o macarrão. Se olhar de ódio matasse o Marcelão estaria fulminado naquele momento. A galega antipática teve que refazer o prato a muito contragosto. Quando chegou minha vez fui pedindo duas colheres e meia de arroz, meia concha de feijão sem caldo, bifes sem gordura e com o molho de cebola por cima, etc, exigindo precisão da cabrita, que ficou a viagem toda com raiva da gente.
Como sempre temos notícias de naufrágios trágicos nos rios da Amazônia, combinei com o Marcelo que caso houvesse qualquer emergência, movimento estranho, alarmes, etc, buscássemos a cabine de comando, na proa, que ficava no mesmo andar e bem perto do nosso alojamento. Pois ali haveria gente experiente. Que mantivéssemos distância do salão onde ficavam as redes e a maioria dos passageiros, pois certamente haveria pânico no local.
A dormida não foi boa. Na parte superior do beliche se eu sentasse batia a cabeça no teto. O colchão forrado com plástico parecia ser um inflável com pouco ar, afundava no meio e o lençol saía do lugar com facilidade. O ar-condicionado gelava minhas canelas e a lâmpada no meio iluminava meu umbigo de tal forma que para ler um pouco tive que usar a lanterna de testa. A leitura que levei para bordo foi 1942, do João Barone, sobre a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial. Muito bom!
Considero que convivemos muito bem dentro daquele cubículo. Ajustamos o ar-condicionado, harmonizamos os horários de uso do banheiro de modo a manter o conforto interno, e cada um respeitou o ritmo e os horários do outro. Eu praticamente só ficava no camarote para dormir à noite, evidentemente com algumas cervas no couro para ajudar a puxar o sono.
Marcelo negociando as passagens

O navio

As valentes bem amarradas

Visão do cais

Margens

Leitura

Cervas

Cabine de comando

Novos amigos: Lorim, Kin (tripulante piloto) e o paulista Edson.

