Enfrentando a Estrada Fantasma - Parte IIMarcelo não tinha mais água, nó a bebemos durante o dia. Eu tinha minha garrafa com dois litros e Joarez duas garrafinhas de meio litro. Juntei as garrafas e coloquei toda a água em local visível e lembrei ao amigos que, com parcimônia, não teríamos problema de falta de água para beber. Havia uma cisterna com água de aparência não muito boa. Tirei um grande balde para termos água para lavar mãos, etc.
Com ajuda da gasolina, a fogueira pegou bem e a lenha obtida deveria dar para a noite toda. Dizem que fogueira espanta onças e cobras. Havia uma velha corrente pendurada na grade do portão e Marcelo tinha um cadeado (não disse que o cabra tinha de tudo?). Trancamos o portão a cadeado, passamos uma corda grossa e demos nós.
Comemos os lanches que estavam na bagagem, barras de cereal, chocolates, etc. Bebericamos um pouco de água e fomos esticar as carcaças. Joarez não quis sequer forrar o chão para dormir. O problema é que ele deitou-se muito perto de mim, a dois palmos da minha cabeça. Riégua, tive que me afastar um pouco porque o cabra ronca demais! Havia um suave luar e nos calamos para tentar descansar. Bem que eu gostaria que a noite fosse breve.
Ouvimos o ruído de um carro. Ficamos na expectativa de que passasse direto. Que nada! Parou em frente ao portão e começou a buzinar. Levantei-me, chamei o Joarez para ir comigo, coloquei a camiseta para fora da calça para ocultar a faca na cintura e também uma arma de fogo inexistente. Joarez demorou a se levantar e caminhei sozinho em direção ao portão e o farol alto do carro não me permitia ver nada, somente ouvia o motor ligado e algumas pessoas falando agitadamente, sem compreender o que diziam. Guardando uma boa distância tentei o primeiro contato:
- Boa noite, por favor, baixem o farol. Falei pausadamente em voz alta.
Dei mais uns passos adiante, parei e repeti um sustenido mais alto:
- Boa noite, por favor, baixem o farol!
Fiquei parado esperando. Quando finalmente baixaram o farol do carro, uma Hilux cabine dupla, vi que eram três pessoas e aproximei-me do portão. Joarez e Marcelo caminhavam no mesmo sentido uns 20 metros atrás de mim, dando cobertura.
Falei que estávamos viajando de motocicleta e que naquela torre não havia mais lugar para pernoitar. Um japonês meio aborrecido respondeu que iriam dormir DENTRO da torre. Você são da Embratel? Perguntei com minha ficha a cair. Eram. Eram prestadores de serviços à Embratel. - E quem tem o segredo para abrir este cadeado? Perguntou o japa ainda com certa rispidez. Calma, o Marcelo está chegando e vai tirar o cadeado. Putz, trancamos a casa com os donos do lado de fora!
Entraram com a caminhonete, abriram a porta da torre onde há um alojamento completo, com quatro camas. Um deles veio conversar com a gente e nos apresentamos. Ele andava de moto e morava em Manaus. Falei que era amigo do Shigueo, que nos aguardava em Manaus. Pronto, o gelo foi quebrado. Eram o Adão, o Rafael (o japa) e mais um que não recordo o nome. Rafael e Adão são pilotos de motocross e fazem muitas aventuras off-road na região.
O donos na “nossa” torre ligaram um gerador de energia que fazia um barulho e fumaça infernais, tomaram diversas providência lá por dentro e depois nos convidaram para jantar na copa/cozinha que havia no interior da torre. Guizado de galinha caipira doada por um índio das proximidades, macarrão tipo fuzili, arroz e farinha. Nada poderia ser tão saboroso naquela situação. Rolou refrigerante, cerveja venezuelana e cachaça mineira de Salinas. Água gelada? Havia a vontade!
Antes de se recolher para dormir, Adão, conhecido como Adão Cross, levou um colchão para o Joarez que estava deitado no cimento e um edredon para mim.
Acordei bem cedo, se é que dormi mesmo. A rede do Marcelo estava a quatro dedos do chão e Joarez puxava sono ferrado. Comecei a despertar os amigos e não demorou o terceiro do grupo da Embratel apareceu nos oferecendo uma jarra de café fumegante que tomamos junto com biscoitos oferecidos pelo Adão.
Adão, que tem muito jeito para consertar coisas, conseguiu colocar no lugar a mola do descanso da moto do Joarez, que havia se soltado num lamaçal dia anterior.
Bagagens arrumadas e motos prontas para a estrada, nos despedimos dos novos amigos com abraços e troca de endereços na internet e redes sociais. O que se iniciou com certa apreensão terminou muito bem. A chegada do carro desconhecido no meio da noite que pensamos ser ameaça, terminou em amizade. Espero um dia rever estes camaradas.
Após exatos 30km avistei à nossa direita a modestíssima pousada Terra Rica, da tal “muié-da-saia-comprida”, alcunha dada por suas vestes de evangélica. Mais à frente encontramos um comboio de cinco caminhonetes 4x4 em direção contrária a nossa. Pararam, conversamos rapidamente sobre as condições da estrada em ambos sentidos e nos despedimos. Foram os únicos carros que encontramos até então. Mais 50km de estrada ruim e estaríamos em Igapó-Açu.
Marcelo seguia na frente quando encontramos uma equipe do jornal Valor Econômico, que fazia reportagem sobre o abandono da BR 319. O cinegrafista pediu para aguardarmos um pouco, posicionou uma filmadora no final de uma ponte e se posicionou em outro ponto para filmar manualmente nossa passagem. Reencontramos os jornalistas em Igapó-Açu. A filmagem ficou bem legal e eles nos cederam os arquivos.
Enquanto aguardávamos a balsa para mais uma travessia de rio, fomos ver os botos sendo alimentados pelos meninos do lugar. Igapó-Açu é um lugarejo à margens do rio Preto do Igapó-Açu. Um pequeno casario de madeira, a pousada de dona Mocinha e seu Raimundo, suspensa sobre palafitas com telhado de zinco, muito simples, porém de grande ajuda para quem se aventura na 319.
Durante a travessia, concedemos entrevista aos jornalistas. Foram várias perguntas e respostas. Porém na edição que foi publicada no site do jornal não saiu quando eu falei que a estrada estava criminosamente abandonada e que tive informações de que havia sido criminosamente destruída. Sabe-se lá se por conta do tal “politicamente correto”. Consta que um governador com vínculos no transporte fluvial de cargas mandou destruir a estrada para evitar prejuízos no setor. No entanto, a reportagem mostrou entrevista com pessoa que testemunhou máquinas arrancando parte do asfalto.
A partir de Igapó-Açu a estrada estava em obras. Poeira, desníveis, terra remexida, pedriscos e máquinas, tudo uma maravilha para quem sobreviveu aos 350km anteriores. Região de pouca floresta e muitas pastagens. Minha única preocupação era que minha moto mostrava reserva há algum tempo e o odômetro parcial mais de 400km e eu não sabia quando teria um posto para abastecer. Vi um placa informando venda de gasolina e entrei no lugar – acampamento desativado da Construtora Gautama. Por garantia coloquei dois litros de gasolina a 8 reais no tanque.
Chegamos a Careiro com o odômetro marcando 492,5km a partir de Realidade. Com os 6 litros extras colocados durante o percurso, o tanque encheu com 11,8 litros (27,67km/l). Seguimos adiante para pegar a balsa para Manaus em Careiro da Várzea. Ao longo da estrada, agora asfaltada, muitas pequenas fazendas de gado, todas as casas eram de madeira e suspensas por palafitas. Cenário bem pitoresco. Fiz várias fotos mentais em preto e branco.
Nossas "instalações"


Pousada em Igapó-Açu.

Cena, infelizmente, não incomum.
